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Disco: “Lua”, Ceticências

Ceticências
Experimental/Industrial/Ambient
http://ceticencias.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Cadu Tenório

Nada é tão exato que não possa ser alterado nas mãos e nos inventos sombrios de Cadu Tenório. Em um senso explícito de descoberta, o músico/produtor carioca passou os últimos dois anos provando de pequenas experiências soturnas. Traços que romperam com os possíveis limites do Sobre A Máquina – projeto o qual assume significativo controle -, enclausurou o VICTIM! em um jogo de ambientes consumidos pelo ruído, e alcança sua melhor forma no presente álbum do Ceticências. Intitulado Lua (2013, Independente), o registro, mais do que uma garantia de continuidade aos efeitos impostos em Beksiński Hug (2012) e Issamu Minami (2013), se concentra na desarticulação da própria obra de Tenório, cada vez mais distante de um possível ponto de estabilidade.

Como se um canteiro de obras fosse sintetizado e transformado em música, Tenório utiliza do álbum como uma colagem de referências tratadas em um fluxo sempre claustrofóbico. São batidas metálicas, vozes sujas e a confirmação de um ambiente consumido em essência pela densidade, como se a curva eletrônica em Pulso, do último disco do Sobre A Máquina, fosse agora aprofundada. A diferença em relação ao cenário proposto há poucos meses está na construção de faixas organizadas em blocos extensos de interferências. Um exercício que concentra na presença de Sávio de Queiroz (Epicentro do Bloquinho), novo integrante do projeto, um complemento natural para a interpretação cada vez mais soturna da obra.

Mais do que abrir espaço para um cardápio de pequenas novidades dissolvidas, Lua é um disco que evidencia a intensa relação entre as faixas. Ainda que esse resultado já fosse visível na composição final de Issamu Minami, ou mesmo no atmosférico Pillow EP, é dentro do presente exemplar que Tenório e Queiroz concentram uma maior afinidade entre as canções. Desenvolvido em uma arquitetura crescente, cada música carrega um pouco da canção anterior, o que faz com que ao alcançar Breuddwyd, no fecho do disco, o álbum se converta em um agregado denso de sons intransponíveis. Uma gigantesca esfera sustentada por escombros instrumentais que crescem de forma irregular a cada segundo.

Projetado em uma atmosfera que busca “contar uma história”, quase como uma trilha sonora involuntária, Lua condensa no fluxo explícito de linearidade um preparativo natural para o próprio ouvinte. Fazendo valer a proposta de hipnotizar com sutileza, Sen, posicionada na abertura da obra, ameniza sintetizadores e batidas em uma espécie de aquecimento para o restante do trabalho. São ruídos abrandados que prolongam a mesma sensação de desconforto explícita no álbum Replica (2011), de Oneohtrix Point Never, porém, em um caráter muito menos sintético e mais contemplativo. Extensa, são pouco mais de sete minutos, a canção, junto de Yume, é apenas uma base para aquilo que Ruya anuncia em um conjunto de sons, vozes e poeira ruidosa de forma a brincar com as impressões do ouvinte. Lua é uma imersão que parece se expandir com naturalidade dentro da mente do espectador.

À medida em que o disco cresce, o que parecia tratado em um compendio atmosférico logo se espalha em uma colisão assumida de ideias. Enquanto Tenório garante sequência ao véu denso que preenche toda a obra, Queiroz intervém de forma específica, instalando ruídos e texturas eletrônicos de expressiva desordem. Mesmo que Breuddwyd (com seus mais de 20 minutos de duração) seja o melhor exemplar de todo esse “confronto”, é em Ruya que o disco realmente assume sua melhor forma. Barras de ferro se chocando, prédios que desmoronam e vozes soterradas por todo esse catálogo obscuro, um exercício que coleta a mesma ambientação invasiva de Tim Hecker e The Haxan Cloak, porém, em uma linguagem particular, por vezes até mais provocante.

Ponto de convergência para diferentes bases e essências instrumentais, Lua, mais do que orbitar o território prévio de Cadu Tenório, parece ditar os possíveis rumos do carioca. É como se toda a construção do segundo álbum do Sobre A Máquina, em 2012, ou mesmo os diferentes inventos testados pelo músico, fossem detalhadas como um mero ensaio para o que é concretizado agora. Sem a necessidade em “agradar” ou fornecer brechas ao ouvinte, o músico e o parceiro Sávio de Queiroz organizam um registro que se esquiva de tudo. Um hermetismo tão angustiante e distante do público que curiosamente revela um efeito contrário, como se descobrir a verdade escondida nos escombros sujos da obra fosse uma inevitável tentação.

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Lua (2013, Independente)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Sobre A Máquina, Tim Hecker e The Haxan Cloak
Ouça: Yume, Ruya e Breuddwyd

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