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Disco: “Lysandre”, Christopher Owens

Christopher Owens
Indie/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.christopherowensonline.com/

 

Por: Cleber Facchi

Christopher Owens

Christopher Owens nos fez acreditar no amor. Mesmo nos instantes mais dolorosos que envolvem o já desgastado sentimento – matéria-prima diária de uma infinidade de registros crescentes -, o californiano conseguiu transformar os versos íntimos de Vomit, Die, Laura e demais composições por ele compostas em algumas das músicas mais honestas e naturalmente românticas da produção atual. Ex-vocalista e principal letrista da extinta Girls, Owens utilizou como poucos a própria melancolia de forma a se aproximar do grande público, resultado que ele volta a repetir na construção de Lysandre (2013, Fat Possum), primeiro registro em carreira solo e uma continuação dos lamentos previamente estabelecidos pelo cantor.

De proposta essencialmente intimista, tão logo inicia o trabalho deixa claras as intenções do músico, que substitui a atmosfera romântica (anteriormente focada em experiências compartilhadas) por um universo de analogias particulares que circulam apenas em torno dele. A transformação vem como uma resposta quase óbvia em relação ao que o afastou do ex-parceiro Chet “JR” White no começo de 2012. Desde o princípio o Girls sempre foi um projeto orientado pela dor e pelas paixões de Owens, logo, a busca por um ambiente em que pudesse desenvolver de maneira individual cada realce de suas próprias impressões parecia ser um caminho natural para o que o artista consolida agora.

Mesmo que a sonoridade e as líricas que delimitam o trabalho se concentrem em um cenário distinto, parte fundamental do que caracteriza a atuação recente de Owens vem diretamente do que foi conquistado como integrante do Girls, principalmente durante a construção de Album (2009). Longe de qualquer acerto raivoso como o que orientava as guitarras e distorções que encapavam o último álbum de sua banda, Father, Son, Holy Ghost (2011), o músico – talvez pela necessidade de suprir a carência do antigo colaborador – se aconchega em um almofadado arranjo de cordas, dedilhados, sopros, sutilezas e principalmente metais.

 

Ainda mais próximo da produção musical que definiu a década de 1960 – um dos pontos fortes dos primeiros inventos do Girls -, Owens abraça de vez o Chamber Pop. A medida proporciona um afastamento nítido em relação às referências litorâneas de outrora, contribuindo para que o músico possa se camuflar em um ambiente bucólico, transformando faixas como Love Is In The Ear Of The Listener e Everywhere You Knew em pequenos exemplares do que parece ser uma recordação não vivida do folk atmosférico da década de 1970. É dentro dessa construção musical que Owens alcança o ponto central do trabalho, ao mesmo tempo em que revela o que parece ser uma natural faca de dois gumes para a obra

Se por um lado a variação de um mesmo tema durante a construção do trabalho – no caso, as melodias semi-medievais que definem Lysandre’s Theme – garante concisão ao disco, por outro lado a redundância em um mesmo efeito musical torna o registro desgastante. Tudo é parte de uma medida genial e preguiçosa, com Owens abandonando boas composições como Here We Go e A Broken Heart em um panorama de incertezas. É como se Lysandre fosse dividido em dois blocos: o primeiro representado pela herança direta do Girls (como na aceleração de New York City) e o segundo aportando em um ambiente novo, o que talvez se caracterize como a marca solo do músico. Duas frentes de mesmo acerto, mas que entram em oposição e tornam a execução do disco por diversas vezes confusa.

De maneira inegável Owens continua falando de amor e nos fazendo acreditar nele de forma tão competente (e íntima) quanto ao lado do Girls. O problema está na incapacidade do músico em decidir se parte de maneira definitiva em busca de um som autoral – representado pelo apego sincero à amada Lysandre e seus passeios pelo pop de câmera -, ou se retorna aos ajustes marcados do que propunha em um passado recente. Independente do caminho escolhido uma coisa é quase certa: as desilusões de Owens estarão lá para abastecer o público.

 

Christopher Owens

Lysandre (2013, Fat Possum/Turnstile)


Nota: 7.5
Para quem gosta de: Girls, Mac DeMarco e Real Estate
Ouça: Here We Go e Love Is In The Ear Of The Listener

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