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Disco: “M B V”, My Bloody Valentine

My Bloody Valentine
Shoegaze/Dream Pop/Experimental
http://www.mybloodyvalentine.org/

Por: Cleber Facchi

My Bloody Valentine

Parte fundamental do que concede beleza e um dos motivos que transformaram Loveless (1991) em uma das obras mais importantes da história da música está no tempo. De forma mais especifica, nas duas décadas que o registro foi degustado pelo público sem concorrentes, sequências oficializadas pelo My Bloody Valentine ou qualquer continuação em estúdio assinada pelas guitarras ruído-climáticas de Kevin Shields. Exatos 22 anos que garantiram ao grupo irlandês a possibilidade de se transformar em um dos projetos mais influentes da música recente, fornecendo subsídios para uma infinidade de lançamentos espalhados ao redor do globo. Duas décadas de ineditismo e silêncio quase absoluto desde que Soon encerrou um dos principais (e quase lendários) registros da década de 1990 e de toda a trajetória do rock – se é que podemos limitar o trabalho da banda a um único gênero.

O tempo, entretanto, sempre foi parceiro de Shields, que para alcançar o ápice daquela que ainda hoje é sua maior obra precisou de quase três anos, diferentes estúdios, horas de gravações, milhares de libras gastas e a quase falência do selo Creation Records. Dessa vez, o compositor precisou de ainda mais tempo e muitas horas mais de gravações esporádicas. Contando com sessões espalhadas ao longo dos anos 1990, outros instantes de captação no começo dos anos 2000, até um fechamento que se estende de 2007 ao final de 2012: Shields finalmente encontrou o que procurava. Depois de anos de experimentações, vozes marcadas pela distorção e uma variedade ambiental de sons que se encaminham para o cenário delicado e ao mesmo tempo áspero, temos em mãos M B V (2013, Independente), aguardado e quase fictício terceiro registro em estúdio da banda que redefiniu o Shoegaze.

Assim como o antecessor, e talvez até menos do que o debut Isn’t Anything (1988),o recente disco é um trabalho que precisa de tempo para ser degustado. Não quer dizer que ao final dos 46 minutos 37 segundos de duração do álbum o ouvinte não consiga compreender a nova proposta que marca a produção do grupo, pelo contrário. Diferente do álbum que o antecede, M B V fornece uma série de mecanismos para se aproximar do público, resultado que vai dos pequenos experimentos eletrônicos espalhados no decorrer da obra, até a fluidez nostálgica que naturalmente se conecta com os dois discos anteriores. Mesmo que pareça datado em alguns instantes – não há como negar que Deerhunter, Beach House e outros “novos” expoentes do Shoegaze/Dream Pop já não tenham encontrado algo melhor em seus trabalhos -, Shields faz com que o disco consiga instigar, intercalando experiências sonoras que servem para prender novos e velhos ouvintes até os últimos ruídos.

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Contrário do que alimenta os dois trabalhos anteriores da banda, o novo álbum se orienta dentro de uma proposta instrumental crescente. Enquanto o primeiro bloco de composições – formado pelo quarteto She Found Now, Only Tomorrow, Who Sees You e Is This and Yes – é articulado de forma essencialmente climática, acomodando guitarras e vozes dentro de um mesmo limite instrumental, à medida que o álbum se desenvolve, toda essa multiplicidade de elementos é alinhada de forma grandiosa, quase épica. O ápice dessa manifestação tem início em In Another Way, uma das músicas mais comerciais do trabalho e curiosamente a faixa que mais remete à fase Loveless pela forma melódica como distorção e voz se encontram. Jovial, a canção inaugura o que posteriormente explode na pesada Nothing Is e finalmente invade os ouvidos no encerramento com Wonder 2, faixa que transforma suas ondas de distorção assoladoras em algo que lembra muito com samples de aviões passando pelo céu.

A incorporação agressiva dada ao segundo estágio da obra se manifesta como um completo oposto das tendências suavizadas que Shields busca explorar de forma curiosa em Is This And Yes e demais canções na abertura do trabalho. Um dos momentos de maior transformação do disco(e talvez da história da banda), a faixa possibilita ao veterano ser influenciado pela safra recente de artistas embalados pelas mesmas temáticas outrora assinadas individualmente por ele. Em alguma medida, o caráter doce da canção parece se dividir entre a psicodelia obscura do Deerhunter (da fase Halcyon Digest) e as tapeçarias sonoras pensadas pela dupla Beach House ao longo do álbum Teen Dream. Ainda que se aproprie de referências similares, Only Tomorrow incorpora outro lado dessa mesma proposta, substituindo os sintetizadores por ondas distorcidas que se movimentam no mesmo regime de calmaria. Quase uma continuação do que a banda encerrou em idos de 1991.

De maneira inegável, M B V parece partir exatamente de onde a banda estacionou há 22 anos. É como se o disco fosse gravado poucos meses depois da turnê de divulgação de Loveless, reflexo natural em relação a mesma atmosfera suja e os encaixes experimentais firmada há duas décadas. Não espere atravessar as densas camadas e os blocos acinzentados do registro em busca de um trabalho que supere o antecessor, afinal, se o tempo é um aliado poderoso para Kevin Shields, talvez somente daqui a alguns anos ele seja alcançar esse feito. Por enquanto permanece uma única certeza: em mais de 20 anos, ninguém conseguiu orquestrar as distorções de uma guitarra com tamanha maestria quanto o músico.

 

M B V

M B V (2013, Independente)


Nota: 9.0
Para quem gosta de: Slowdive, Ride e Deerhunter
Ouça: Only Tomorrow, New You e Wonder 2


20 thoughts on “Disco: “M B V”, My Bloody Valentine

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