"M3LL155X"

Ano: 2015
Selo: Young Turks
Gênero: R&B, Eletrônica
Para quem gosta de: Beyoncé e Arca
Ouça: I’m Your Doll, In Time, Glass & Patron
Nota: 8.5

Resenha: “M3LL155X”, FKA Twigs

Pouco mais de dois anos, esse foi o tempo necessário para que FKA Twigs se transformasse na nova queridinha da música pop. Destaque em capas revista, publicações especializadas e até novo “ícone da moda”, a cantora, compositora e produtora britânica parece longe de alcançar uma possível zona de conforto, reformulando a própria imagem a cada trabalho em estúdio. Prova disso está no lançamento de M3LL155X (2015, Young Turks), mais recente registro de inéditas e álbum em que somos apresentados ao novo “personagem” criado pela artista: Melissa.

Alter ego feminista da cantora, a personagem parece ser a forma encontrada por Twigs para discutir diferentes aspectos (e tormentos) do universo feminino. Um catálogo curto, cinco composições que, mesmo orquestradas por arranjos e batidas íntimas do R&B/Pop, mantém firme o discurso e a sobriedade da artista britânica, tão provocativa e comercial quanto no último registro de inéditas, LP1 (2014). Canções marcadas por abusos (I’m Your Doll), sexualidade (In Time) e abandono (Glass & Patron).

Talvez efeito da “máscara” utilizada pela cantora, M3LL155X curiosamente se articula como o trabalho mais intimista, confessional e acessível da curta trajetória de FKA Twigs. A cada nova faixa, uma sequência de sussurros amargurados, versos costurados pelo romantismo e a profunda melancolia da compositora. “Olhe nos meus olhos, nos meus olhos / Completa, estou aqui / Estou aqui, estou aqui / Olhe nos meus olhos / E diga que você também está aqui”, grita a desesperada personagem em I’m Your Doll, música que sintetiza todo o sofrimento explorado no decorrer da obra.

Não são apenas os versos que refletem a completa transformação de Twigs. Com assinatura do produtor norte-americano BOOTS – mesmo responsável pelo último disco da cantora Beyoncé -, M3LL155X é o trabalho em que o som incorporado de forma experimental pela artista britânica é delicadamente derrubado. Do encaixe límpido das vozes, passando pelo uso descomplicados das batidas e bases, diversos são os momentos da obra em que Twigs parece entregue ao grande público.

De fato, cada uma das cinco faixas do trabalho parecem articuladas como verdadeiros hits, rompendo com a complexidade dos arranjos testados até o último álbum. Enquanto I’m Your Doll e In Time sustentam no refrão o completo diálogo de Twigs com um som comercial, Figure 8 e Glass & Patron revela nas batidas o lado mais “dançante”, ainda que sombrio, da obra. Em Mothercreep, faixa de encerramento do álbum, um leve distanciamento desse mesmo universo. A julgar pela base densa dos sintetizadores, uma espécie de “sobra” das canções divididas entre a cantora e o produtor Arca, colaborador frequente de Twigs desde EP2 (2013).

Possível ensaio para os futuros trabalhos da cantora, M3LL155X, mesmo íntimo do pop é um registro em que FKA Twigs continua a brincar com a própria essência. A relação com a obra de veteranas como Björk, Beyoncé e Beth Gibbons (Portishead) ainda é explicita e essencial para o crescimento da obra, entretanto, aos poucos a cantora parece seguir um caminho próprio, cada vez mais curioso, torto e ainda próximo do ouvinte.


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