Disco: “Major Arcana”, Speedy Ortiz

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Speedy Ortiz
Indie Rock/Lo-Fi/Alternative Rock
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Por: Cleber Facchi

Speedy Ortiz

O roteiro cíclico da música é visível no esforço criativo de Major Arcana (2013, Carpark), trabalho de estreia da banda norte-americana Speedy Ortiz e olhar assumido para os sons lançados há duas décadas. Representação presente de tudo o que ocupou o rock alternativo em 1993, o álbum funde como propósito instrumental a essência de bandas como The Breeders e Sebadoh com as líricas pessoais de Liz Phair – efeito fortalecido nos vocais similares de Sadie Dupuis. Entretanto, na contramão de obras engessadas pelo Revival 90’s, o grupo de Northampton, Massachusetts fecha o disco em uma estética própria, brincando com as referências, sem necessariamente parecer como uma cópia.

A julgar pela imposição de artistas como Waxahatchee e Mikal Cronin, olhar para o reduto de obras acumuladas há 20 anos se revela como um tesouro recém-descoberto para a presente safra de compositores. Em Major Arcana o mesmo exercício é pensado de forma curiosa. Mais do que reviver sons e experiências conceituais em um sentido de “coletânea”, à exemplo de outros grupos conterrâneos, a banda faz da completa transposição dos elementos musicais a engrenagem que movimenta com acerto cada faixa. Assim, o disco deixa de pinçar marcas específicas para se transportar em essência, alimentando o álbum em uma temática de visível unidade e sons que parecem ter atravessado décadas.

Speedy Ortiz

Com o propósito de abrir mão da sonoridade versátil (e nostálgica) que comanda boa parte das obras do gênero, o grupo – representado pelo guitarrista Matt Robidoux -, acaba por concentrar todas as canções do disco em uma mesma embalagem musical. Das guitarras prazerosamente nitridas pelo ruído, às linhas de baixo que se permitem dançar pela herança de Kim Deal, todo o composto musical do disco se propaga de forma aproximada. Um meio termo entre as invenções de J Mascis com a obra inicial do Dinosaur Jr e a leveza evocada pelo Breeders Pós-Last Splash. Entretanto, longe de reviver marcas específicas como uma cria de toda uma geração, o grupo surge como parte dela.

De efeito crescente, músicas aos moldes de Gary e Pioneer Spine preparam o terreno e ao mesmo tempo ocultam suas reais intenções como uma fórmula bem resolvida. Enquanto a voz de Dupuis entrega pistas durante toda a formação das músicas, uma camada instrumental de imposição ruidosa se apresenta com vigor, posteriormente soterrando o ouvinte em uma avalanche de distorções caseiras que fariam Thurston Moore sentir inveja. Resolvido de forma a impressionar e manter o ouvinte sempre atento, cada música se orienta em pequenos atos, formação típica dos paredões sujos incorporados pelo Nirvana a partir de Nevermind (1991), mas que encontram na arquitetura do grupo um exercício particular.

Mesmo que a beleza em torno de Major Arcana se concentre nos ruídos sóbrios que perfumam o trabalho, é no lado mais “pop” do disco que a banda surpreende. Ao abandonar a trilha demasiado adulta de outros grupos próximos, a banda lida com os sons em uma medida de pleno descompromisso e raiva jovial, resultado que brilha no punk polido de Fun e nas melodias cantaroláveis de Hitch com um apego radiofônico convincente. Sem perceber o ouvinte acaba rodeado por harmonias vocais que contrapõem o aspecto rude da obra, característica assinada nos “uh uh uhs” voluntários da cantora e acordes acelerados que até lembram o Pavement no clássico Slanted & Enchanted.

Mais do que se transportar para os anos 1990 como um sentido de devoção confessa, a banda assume com o primeiro álbum um entusiasmo autêntico, longe de qualquer fórmula pronta. Do pop sujo instalado na faixa de abertura, Pioneer Spine, ao crescimento épico que serve de base para a canção de encerramento, MKVI, Major Arcana exibe o esforço de um grupo que mesmo inclinado ao passado não se esquece do que ocupa o som no presente. Dessa forma, a grandeza no conteúdo expresso pela banda se constrói de forma atemporal, sendo possível visualizar a estreia do grupo como uma fita cassete resgatada do fundo de uma gaveta, ou como um arquivo virtual de uma jovem banda independente.

 

Major Arcana (2013, Carpark)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Waxahatchee, Mikal Cronin e The Breeders
Ouça: Pioneer Spine, Fun e MKVI

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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