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Disco: “Matangi”, M.I.A.

M.I.A.
Hip-Hop/Electronic/Pop
http://www.miauk.com/matangi

Por: Cleber Facchi

M.I.A.

Viver rápido, morrer jovem/ Garotas más são boas nisso”. Quando apresentou ao público os versos precisos de Bad Girls, em janeiro de 2012, a britânica Mathangi Arulpragasam, ou simplesmente M.I.A., parecia de alguma forma dividir a própria carreira em dois pontos específicos. De um lado estava a ascensão – marcada pelos essências Arular (2005) e Kala (2007) – e a queda – explícita na irregularidade de /\/\ /\ Y /\ (2010). No outro oposto, a abertura para um novo projeto. Longe do velho parceiro e colaborador de longa data, Diplo, a rapper trouxe no ponto de separação da própria obra um senso natural de descoberta, firmando no Oriente Médio (bem retratado no clipe de Romain Gavras) o princípio para o que cresce na composição final de Matangi (2013, Interscope).

Misto de regresso ao cenário vasto da World Music, e ponto de transformação dentro da obra da rapper, o quarto registro em estúdio de M.I.A. é uma tentativa de buscar sustento em um ambiente onde muito já foi feito. Para o ouvinte passageiro, o sample pegajoso e os versos encaixados de Paper Planes talvez sejam a melhor representação do trabalho da artista. Quem sabe até o turbilhão tropical de Bucky Done Gone ou o colorido multiétnico de Boyz. Entretanto, a obra da britânica vai além de um mero agregado plástico de vozes e sons. M.I.A., ao menos na última década, foi uma das poucas vozes femininas a proclamar um discurso político-social não vago. Uma espécie de heroína anárquica que levantou o dedo médio, quando abaixar a mão e mostrar as unhas pintadas era o grande delírio da música pop.

Triste pensar que em Matangi, seja justamente esse mesmo discurso falho e íntimo do pop convencional que alimenta o trabalho da rapper. Da manifestação previsível que ocupa os versos de Y.A.L.A. (“If you only live once why we keep doing the same shit”), passando pela sexualidade forçada em Sexodus (“Baby you can have it all/ Tell me what for”), cada instante da obra transforma M.I.A. em uma jovem desnorteada. Sem convicções políticas definidas, a rapper parece dançar em um estágio nonsense da banalidade, como uma extensão da proposta anunciada em Give Me All Your Luvin’, parceira com Madonna no último ano. Não são poucos os momentos em que traços da maturidade em Kala são pontualmente resgatados, porém, sob o mero pretexto de que a artista encontrou um mundo de texturas da música indiana para visitar os velhos temas.

Enquanto os versos tropeçam e caem a todo o instante, musicalmente Matangi é uma obra que se divide entre erros e acertos claros. Se por um lado faixas aos moldes de Warriors e Bring The Noize representam com versatilidade toda a aproximação da rapper com a cultura hindu, outras como Only 1 U, aTENtion e a própria faixa-título não passam de uma reformulação das bases apresentadas nos discos passados. Basta observar a forma como Matangi (a música) se movimenta como uma usurpação suja dos arranjos entregues pela própria artista em Boyz. Enquanto Kala e Arular faziam de cada música um ponto de convergência para diferentes estéticas – condensando Pixies, New Order, The Clash e arranjos regionais em um mesmo ambiente -, em Matangi, poucas são as faixas capaz de alcançar a mesma diversidade. A ausência de credibilidade em relação ao disco é tamanha, que a própria Double Bubble Trouble, décima faixa do álbum, “curiosamente” soa como uma fusão de Shove It e Creator da norte-americana Santigold. 

Por falar no trabalho de Santi White, interessante observar como diversos aspectos de Matangi se confundem com Master of My Make-Believe (2012), último álbum da artista. Enquanto White fez do registro uma obra atrativa, talvez prejudicada pelos espera em torno do lançamento oficial, M.I.A. reforça com o novo disco a mesma sensação de “atraso” e baixa carga de novidade. É como se toda a euforia em torno da obra fosse concentrada em idos de 2012, quando Bad Girls parecia uma resposta madura ao terreno confuso apresentado em /\/\ /\ Y /\. Se observarmos de forma atenta, a real função de Matangi é seu posicionamento como um “pedido de desculpas” aos exageros do álbum de 2010. Basta prestar atenção na forma como toda a essência ruidosa testada no disco passado foi simplesmente ignorada, confirmando a completa ausência de direção da artista no tão defendido (pelos fãs) disco.

Tentativa visível em se reerguer, Matangi reforça a todo o momento o quanto M.I.A. soa motivada produzir um bom trabalho – mesmo sem saber exatamente como alcançar isso. A ausência de Diplo ou quem sabe um produtor de pulso firme ainda parece ser a maior carência em relação ao propósito da artista. Prova explícita disso está na inclusão de Come Walk With Me, uma canção que, mesmo agradável e acessível aos mais diversos públicos, destoa completamente do que parece inicialmente pensado para o disco. Por enquanto, M.I.A. se apresenta como uma versão frágil de si própria. Nada além da imagem de uma garota revoltada no Instagram, e que está longe de resgatar a mesma postura firme sustentada há poucos anos.

 

Matangi

Matangi (2013, Interscope)

Nota: 6.0
Para quem gosta de: Santigold, Rye Rye e Azealia Banks
Ouça: Bad Girls, Warriors e Bring The Noize


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