""

Ano:
Selo:
Gênero:
Para quem gosta de:
Ouça:
Nota:

Disco: “Miragem”, Ludov

Ludov
Brazilian/Indie/Alternative
http://ludov.com.br

Por: Cleber Facchi

Ludov

Há pouco mais de uma década, quando o EP Dois a Rodar (2003) e o clipe de Princesa apresentaram o trabalho da paulistana Ludov, a esperança e o romantismo jovial dos versos pareciam guiar cada instante da recém-inaugurada banda. Longe das canções em inglês apresentadas pelo Maybees, grupo que serviu de alicerce para a coletivo, Vanessa Krongold, Habacuque Lima, Paulo “Chapolin” e Mauro Motoki assumiam sorrisos mesmo nos instantes de maior melancolia, percepção que desaparece de vez ao entrarmos no ambiente escuro e essencialmente sóbrio de Miragem (2014, Tratore).

Quarto álbum de estúdio dos hoje veteranos da cena paulistana, o presente álbum parece seguir a direção apontada há sete anos em Disco Paralelo (2007). Vendo o mundo sob os olhos da personagem central da faixa Rubi – “Meus olhos ainda/ eram diamante/ Já chorei à beça/ de hoje em diante/ viraram rubi” -, o presente álbum é uma tentativa de superar a própria melancolia do passado, mesmo sem saber ao certo o que será encontrado logo em frente. Da dúvida em em Cuidada da Casa, ao desejo de mudança exposto em Reparação, seguir em frente é o princípio de ordem dentro do novo disco, experiência que está longe de ser interpretada com real aceitação.

O mar que você me deu/ Não serve pra navegar… Essa aventura de partidas e nunca de chegadas/ Fiz um mapa pra seguir e me perdi nas coordenadas“. A mudança de direção anunciada logo na faixa de abertura, Copo de Mar, é a chave para entender o novo álbum, um registro que (lentamente) tenta se livrar de tudo o que ficou para trás e recomeçar. Ao investir em vocalizações ainda mais densas do que as testadas nos outros trabalhos, Krongold encontra o ponto ideal para que os versos assinados de forma coletiva assumam um ponto exato de maturação. Como respirar com um nó está estacionado na garganta, Miragem é um registro doloroso, ambientando o ouvinte aos encontros e desencontros esparramados em cada faixa.

Praticamente livre de possíveis hits e faixas ensolaradas, típicas do primeiro disco, o atual projeto é uma obra para se apreciar lentamente, em pequenas doses. Arrastadas e atmosféricas, as canções desenvolvem um ambiente a ser explorado de forma controlada, proposta que se só extingue suas imposições ao ecoar de O Fim da Paisagem, ato final do disco. Parte expressiva disso vem da produção atenta do registro, uma espécie de aprimoramento delicado dos rascunhos gerados em Minha Economia (2011), O Paraíso (2012) e Eras Glaciais (2013), três últimos EPs da banda. Tudo é sombrio e triste, mas nem por isso menos esperançoso, sentido que conduz versos e arranjos da obra.

Detalhista em essência, Miragem é uma obra que provoca a mente e enche os ouvidos do espectador. Basta observar o andamento utilizado em Congelar, quarta faixa do disco, para perceber isso. Inaugurada pela voz presente de Krongold, a faixa aos poucos brinca com as experiências do público, espalhando sintetizadores repletos de texturas, solos de guitarras alongados e a batida climática de Chapolin, ferramentas que promovem uma verdadeira experiência hipnótica. Mesmo nos instantes mais efêmeros do disco, caso de Sétima Arte, a estratégia é o ponto chave para o crescimento do trabalho, orientado a pesar sobre o público. Como toda separação e sentido de mudança, nada se revela de forma imediata, logo, não poderia existir cenário mais assertivo para o disco.

Miragem não é um disco para quem busca por repostas rápidas e canções guiadas pela urgência, pelo contrário. Trata-se de uma obra que cresce e encontra movimenta dentro de uma medida quase particular de tempo, como uma exigência, contrariando o brilho pop dos primeiros álbuns do grupo e sobrevivendo da própria reclusão.

Ludov

Miragem (2014, Tratore)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Transmissor, Lulina e Pública
Ouça: Copo de Mar, Quem cuida da Casa e Congelar


One thought on “Disco: “Miragem”, Ludov

Comments are closed.