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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

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De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos.

Pela forma desproporcional e naturalmente inexata que a banda posiciona as faixas, surge no decorrer da obra uma estranha relação com o que o Deerhunter alcançou no quase inexpressivo Turn It Up Faggot (2005), trabalho de estreia do quinteto. É como se todas as pontas soltas há mais de meia década fossem finalmente costuradas em um detalhamento que exerce propósito. Melhor exemplo disso está na formatação de Tech School e Oceans, faixas que compartilham do mesmo Punk Experimental que constrói a quase totalidade do novo disco. Prevalece ainda a necessidade da banda em provar de novas experiências, o que explica o retorno do produtor Nicolas Vernhes (que trabalhou com a banda no também agressivo Microcastle) e uma estranha relação com a obra do Pixies, R.E.M. e outros artistas de peso da década de 1980.

A julgar pelo desespero que circula pela obra, é possível observar o álbum como um despertar em relação à calmaria desmedida que vinha se derramando pelo trabalho do quinteto. Desde o ponto de maturação em Cryptograms e posteriormente estendido até a construção de Halcyon Digest, cada registro da banda parecia mergulhar em um oceano lisérgico tingido pela psicodelia em preto e branco. Um completo oposto do que se manifesta no novo álbum. Monomania é um disco naturalmente excêntrico, sujo e parece alimentado por uma inquietação que a banda exercia apenas em doses controladas nos últimos discos. Como se beirasse um desfiladeiro, o álbum talvez seja o ponto final de uma carreira marcada pelo acerto, ou talvez apenas mais uma curva no exercício instável que decide disco após disco trajetória do Deerhunter.

Monomania (2013, 4AD)


Nota: 8.5
Para quem gosta de: Atlas Sound, Lotus Plaza e My Bloody Valentine
Ouça: Monomania, Sleepwalking e Leather Jacket II


5 thoughts on “Disco: “Monomania”, Deerhunter

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