Disco: “More Light”, Primal Scream

Categories Resenhas

Primal Scream
Britpop/Alternative/Electronic
http://www.primalscream.net/

 

Por: Fernanda Blammer

Primal Scream

Parece cada vez menos provável que Bobby Gillespie um dia retorne ao mesmo terreno fértil e extremamente drogado de Screamadelica (1991). Ainda que o músico consiga sustentar de forma criativa cada novo registro do Primal Scream, apresentando vez ou outra obras de peso similar – como Vanishing Point (1997) e XTRMNTR (2000) -, os rumos do cantor e compositor escocês parecem alterados há todo o tempo. Contrariando o próprio cenário que vem desenvolvendo desde o início da década passada, o britânico faz do recente More Light (2013, Ignition) um regresso aos anos 1990, transformando o décimo álbum da carreira um cuidadoso retrospecto livre de exageros.

Sem o propósito de regressar ao enquadramento neo-psicodélico iniciado no fim dos anos 1980, Gillespie se orienta de forma a amarrar particularidades recentes com marcas específicas do que foi conquistado há duas décadas. Dessa forma, há na formatação do disco um propósito que dança pelo ritmo acelerado (assumido desde Vanishing Point) até a sonoridade épica que se espalha na obra-prima do músico. Um cruzamento constante entre Can’t Go Back com Come Together, I’m Comin’ Down e I Love to Hurt (You Love to Be Hurt) e todos os contrastes que representam os blocos mais distantes da discografia da banda.

Diferente do que parecia testar em Beautiful Future (2008), Gillespie e o produtor David Holmes tratam do álbum como um trabalho alimentado pela grandeza. Assim como as canções imensas testadas em Screamadelica, o músico utiliza de boa parte do novo disco para viajar em instrumentais extensos, bases embaralhadas pela psicodelia e um acerto de cores e sons tocados pela grandeza natural. Como se fosse um aviso para o que circula pela obra, o britânico faz das duas primeiras composições um filtro, trazendo em mais de 16 minutos (somando as faixas) uma morada para pequenos experimentos e, claro, reformulações intencionas da música pop.

Contrário ao que poderia parecer, More Light segue em uma medida coesa mesmo dentro da própria grandeza, transitando pela crescente presença dos sons sem a busca pelo exagero. Por mais imenso que seja o panorama instrumental firmado em Relativity e Elimination Blues, além de outras faixas do álbum, Gillespie e o produtor encontram na formatação das faixas um ponto de equilíbrio e mutação para a obra. Oposto do que fora trabalhado há duas décadas, as faixas não parecem presas à qualquer loop instrumental ou redundância forçada, assumindo percursos imprevisíveis a cada nova etapa.

Ao mesmo tempo em que a grandeza de algumas faixas se materializa como um ponto de referência para o trabalho, a extensa duração de More Light como um todo diminui a efetividade do registro. Enquanto a primeira metade do álbum se apresenta dentro de um composto extremamente detalhista e marcado pela mudança constante dos percursos, a partir do segundo bloco de canções Gillespie tenta simplificar em excesso, acumulando faixas desnecessárias. Dessa forma, surgem canções que parecem destoar do conjunto final da obra, como Walking With The Beast, tornando o registro maior do que necessariamente deveria ser.

Por mais que o Primal Scream esteja longe de revelar o mesmo acerto que emana do trabalho recente de bandas como Spiritualized, My Bloody Valentine e outros artistas surgidos no mesmo período, em More Light Bobby Gillespie mantém firme a capacidade de prender o ouvinte. De formação radiante e propósito comercial, o trabalho se desmancha em uma variedade de rumos imprevisíveis há duas ou mais décadas, sendo provavelmente apenas mais uma etapa passageira no caminho irregular que a banda continua a percorrer.

 

Primal Scream

More Light (2013, Ignition)


Nota: 7.5
Para quem gosta de: Happy Mondays, The Stone Roses e Spiritualized
Ouça: 2013 e It’s Allright, It’s Ok

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

0 thoughts on “Disco: “More Light”, Primal Scream

  1. Achei o disco um “Vanishing Point” pros dias de hoje.
    Nada mais que isso.

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