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Disco: “More Than Any Other Day”, Ought

Ought
Indie Rock/Alternative/Art-Punk
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Por: Cleber Facchi

Quase quatro décadas separam o cenário musical assumido no final dos anos 1970 do presente panorama. Mesmo este distanciamento – temático e temporal – de forma alguma parece ter afetado a essência de veteranos que conquistaram espaço na época, caso de grupos como Television, Wire ou mesmo o cantor Elvis Costello. Base para todas as transformações que guiaram o “Indie Rock” no começo da década passada – principalmente Is This It (2001), do The Strokes -, o mesmo conjunto de artistas volta a ditar as regras em More Than Any Other Day (2014, Constellation), estreia do grupo canadense Ought e um confesso regresso ao ambiente criativo de 1977.

Brincando com a essência de obras clássicas como Marquee Moon e Pink Flag, o registro é uma perversão completa dos clichês que alimentam o novo rock alternativo – cada vez mais apoiado nos anos 1990. Em toda a extensão do álbum, guitarras, vozes e temas brincam com o passado, encontrando nas melodias quebradas e vocais instáveis do período uma passagem natural para o presente. Entretanto, mais do que brincar de forma caricata com uma série de elementos tradicionais, o debut de oito faixas cresce como uma adaptação inteligente da mesma estética.

Logo de cara, Pleasant Heart entrega ao ouvinte todas as regras e experiências que conduzem a formação do álbum. Um riff torto, meio dançante, meio jazzístico passeia por entre a fluidez natural das batidas – sempre íntimas do Art Punk. No meio desse ambiente de caos controlado, a voz de Tim Beeler, vocalista do grupo, desequilibra a linearidade, quebrando a ciclicidade consolidado no jogo matemático dos arranjos e abrindo passagem para o eixo climático, ainda que ascendente, nos minutos finais da canção. Como uma dança esquizofrênica, a faixa muda de direção a todo o instante, transportando o álbum (e o ouvinte) para um ambiente que encontra o desespero nos minutos finais.

Com as normas bem estabelecidas, se é que elas realmente existem, chega a vez de Today More Than Any Other Day e Habit firmarem certa dose de conforto ao espectador. São, como grande parte do disco, faixas extensas, abastecidas por letras de fácil absorção, mas não menos corajosas. Versos matemáticos que estabelecem uma eficiente comunicação com os arranjos, sempre inexatos. Se o ritmo cresce, crescem os versos e a voz de Beeler, encarada como uma ferramenta instável durante toda a formação do álbum. Dessa forma, o grupo tem a ponte para o restante do trabalho, guiando as experiências do público para o ambiente incerto de The Weather Song, Around Again e demais faixas tão nostálgicas, quanto presentes.

Excêntrico como um propósito, More Than Any Other Day usa da própria complexidade como um atributo para encantar o ouvinte. Mesmo que se esquive da formação de prováveis hits durante todo o percurso, o disco de forma alguma rompe com uma série de referências capazes de pescar o ouvinte. Basta observar a formação de Clarity!, música que usa do crescimento gradual ao longo de sete minutos como uma barreira para a provável fuga do ouvinte. Já outras como Around Again agradam pela simplicidade, fazendo do punk funkeado da música uma espécie de interpretação da obra do Talking Heads pré-Remain In Light (1980).

Mesmo apontado para o fim dos anos 1970, a estreia do Ought está longe de buscar inspiração em um ponto específico da história. É visível durante toda a obra a herança de grupos como The Velvet Underground (Forgiveness), Sonic Youth (Clarity!) e até Cap’n Jazz (Gemini), veteranos digeridos de forma inteligente com o passar do álbum. Com um ponto específico de apoio, porém, buscando por outras variações instrumentais, More Than Any Other Day brinca com as possibilidades, arrastando o ouvinte para onde quer que ele encontre segurança e prováveis essências a (re)interpretar.

 

Ought

More Than Any Other Day (2014, Constellation)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Speedy Ortiz, Talking Heads e Parquet Courts
Ouça: Habit, Today More Than Any Other Day e Clarity!


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