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Disco: “Museu de Arte Moderna”, Bonifrate

Bonifrate
Brazilian/Psychedelic/Alternative
http://bonifrate.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Bonifrate

Outrora habitante de uma floresta de experiências instrumentais mágicas, Pedro Bonifrate fez das próprias referências ao longo dos anos uma lenta transposição conceitual. O que antes era cercado por árvores, animais fantásticos e até mesmo duendes – em uma clara extensão ao cenário proposto para o Supercordas -, hoje parece se aproximar com nítido cuidado de qualquer centro urbano. O bucolismo místico virou concreto, o personagem verde-musgo do compositor resolveu caminhar por entre prédios e cada faixa que sustenta o recém-lançado Museu de Arte Moderna (2013, Independente) funciona como uma desconstrução do universo pastoril imposto previamente pelo músico.

Se há pouco menos de dois anos Bonifrate esperava por um trem metafórico, carregando um futuro inteiro de novas composições e experiências, hoje elas se fazem presentes, talvez até maiores do que o esperado. Longe de esbarrar em conceitos próximos do Folk lisérgico preparado para o disco passado, o cantor e compositor fragmenta a própria mente (e as melodias) para alcançar uma obra de efeito ampliado, como se a psicodelia tradicionalmente enquadrada dentro da obra do músico fosse resolvida em uma aproximação com leve com o pop. Flutuando, mas sem exageros, o cantor atiça a curiosidade do ouvinte, escondendo em cada faixa do novo disco uma sequência de peças coloridas a serem lentamente desvendadas.

Musicalmente amplo, o presente disco vai da neo-psicodelia do Primal Scream (Allegro! Allegro!) ao reggae (Horizonte mudo), mas sem desviar dos rumos que parecem traçados logo na faixa de abertura, Homem Ao Mar. Como se o estranho ser de chapéu de palha, posicionado com timidez nos discos anteriores, fosse descobrindo um novo mundo, agora conceitualmente urbano, Bonifrate experimenta tendências e acrescenta instrumentos (como o saxofone de Alexander Zhemchuzhnikov) até finalizar uma obra tão colorida, quanto a essência musical que há tempos o cerca. Um álbum que até autoriza o ouvinte a se perder por entre as densas camadas de reverberações e ruídos cósmicos, mas acima de tudo, um registro que chega ao final presenteando o espectador com boas respostas.

Enquanto os dois registros que antecedem Museu de Arte Moderna trazem um cantor visivelmente perdido nas palavras – o que está longe de parecer um erro se levarmos em conta a proposta dos trabalhos -, com a recente obra Bonifrate esbanja segurança. Mais do que investir de forma cuidadosa nas melodias, encaixando riffs e harmonias semi-hopnóticas, é na lírica doce e concisa que o álbum realmente impressiona. O sempre exagerado e já tradicional existencialismo Hippie se materializa em delicadas canções de amor (Soneto estrambótico), instantes de raiva ponderada (Eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos) ou canções que revivem a estética nonsense dos álbuns passados em um efeito de novidade (Sabe Da Última). Bonifrate parece simplesmente se divertir por entre os sons e as palavras.

Se em diversos momentos o cantor materializa a construção de um novo personagem, moderno, a suavidade mística de canções como Guaianá Mainline trazem Bonifrate de volta ao princípio. Partidária dos mesmos efeitos instalados no clássico Seres Verdes ao Redor (2006), a música antecipa o que o eixo final do trabalho sustenta com profunda leveza e transposições etéreas. Basta nadar pelo lago colorido de Paralaxe (faixa que derrete vozes e instrumentos em um mesmo condensado sonoro), ou quem sabe Canção de pelúcia, música que resgata o toque Lo-Fi do último disco, potencializando os arranjos acústicos da obra. Some a isso os essenciais interlúdios de Garbino, Aracati e Zéfiro e você tem em mãos um trabalho que inaugura e finaliza uma sequência de pequenos ciclos internos, prova de que a habilidade do músico em brincar com as próprias bases temáticas parece ampliada de forma madura.

Com o posicionamento sóbrio de alguém que sabe exatamente onde quer chegar, Bonifrate abre o registro segurando o ouvinte pelas duas mãos, deixa que ele passeie livremente pelo cosmos hermético do trabalho, para ao final trazê-lo de volta até o chão – com segurança. Solucionado o que talvez surgisse de forma exagerada na construção dos trabalhos passados, mas ainda assim capaz de orquestrar ondulados lisérgicos de longo alcance, o cantor mais uma vez entrega ao ouvinte um registro de estúdio que pode até funcionar musicalmente, mas que vale muito mais como uma colorida experiência.

Bonifrate

Museu de Arte Moderna (2013, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Supercordas, Cérebro Eletrônico e Mopho
Ouça: Allegro! Allegro!, Soneto estrambótico e Eu não vejo Teenage Fanclub…