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Disco: “Music for the Quiet Hour”, Shackleton

Shackleton
Experimental/Electronic/Dubstep
http://www.skulldisco.com/

Por: Cleber Facchi

Sam Shackleton parece ser um apaixonado pelos detalhes. Desde que as primeiras composições do britânico começaram a surgir na segunda metade da década passada, que o produtor tem se revelado como um exímio construtor de nuances delicadas, bases tomadas pela sutileza e toda uma variedade de sons e formas eletrônicas que se sobrepõem harmonicamente. Assumindo um caminho particular dentro do Dubstep, o inglês passeia pelo cenário como um hábil observador, pinçando referências vindas de distintos campos musicais, mas que se completam quando acopladas no interior de cada novo lançamento anunciado por ele.

A exemplo do que Steve Goodman (Kode9) conseguiu com o Hyperdub ou o produtor alemão Wolfgang Voigt com o selo Kompakt, Shackleton resolveu montar um espaço para lançar seus próprios registros, o Skull Disco. Criada em parceria Laurie Osborne (do projeto Appleblim), o selo se especializa no lançamento de registros voltados exclusivamente ao Dubstep ou demais experimentos eletrônicos, servindo como principal marca de todos os lançamentos da dupla. Entretanto, agora dono de um novo selo, o Woe to the Septic Heart, Sam traz como grande projeto de estreia não uma, mas duas obras de peso e enorme contribuição dentro da cena eletrônica atual:  The Drawbar Organ EPs e Music for the Quiet Hour.

Lançados como partes de um registro fechado, a imensa obra de mais de duas horas de duração rompe com as possíveis divisões para resultar em um projeto que aos poucos se completa. Enquanto a primeira metade do trabalho concentra uma série de composições lançadas em três EPs distintos – apresentados exclusivamente em vinil -, a segunda parte deixa aflorar os ineditismos do produtor, que em cinco (extensas) faixas percorre os últimos 15 anos da produção britânica de maneira a captar todos os acertos que a definiram. Atmosféricos, intensos e pulsantes, ambos os trabalhos se abrem para um mundo de desafios instrumentais que vão do minimalismo (Music for the Quiet Hour Part 1) aos momentos de mais pura exaltação (Seven Present Tenses).

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Por mais que ambos os registros aos poucos estabeleçam um caráter de aproximação, relacionando músicas que praticamente dialogam entre elas, cada uma das metades parte de uma proposta independente. Talvez pelo lançamento em três seleções fragmentadas, em The Drawbar Organ EPs Shackleton deixa fluir o lado mais intenso do trabalho. Das batidas aos curtos vocais que vez ou outra surgem ao fundo das bases ruidosas, tudo se movimenta de forma crescente, com o produtor investindo a todo o momento no uso de uma percussão volátil, como se os beats secos do Kode9 se encontrassem com a acessibilidade gerada no álbum de estreia do SBTRKT.

Se a vivacidade instrumental das formas contribui para um engrandecimento do álbum, em Music for the Quiet Hour o inglês entrega um completo oposto disso. Com uma proposta intencionalmente climática, o registro explora a sobreposição constante dos ruídos, bases e até mesmo alguns textos, como a gigante Music for the Quiet Hour Part 4 (com mais de 21 minutos de duração) acaba revelando. Experimental em essência, o registro possibilita que o produtor alcance uma série de novas possibilidades, tocando por vezes o drone, encarnando a ambient em aproximação com o noise e reconfigurando o dubstep de forma sempre instigante, como se não houvessem limites ao trabalho assim que a primeira faixa do registro inicia.

Independente dos registros, Shackleton manifesta em cada nova composição a mesma proposta esquizofrênica que tanto definiu os dois lançamentos do conterrâneo Andy Stott no último ano. Tudo é ao mesmo tempo bizarro e atrativo, como se o produtor, ciente das especificidades das músicas por ele arquitetadas desenvolvesse uma série de artifícios que involuntariamente tendem a fisgar o ouvinte. Estranho perceber, que mesmo sendo este o primeiro registro oficial do britânico, é como se ele estivesse há vários anos oculto ou mesmo timidamente ativo em uma infinidade de trabalhos por aí.

The Drawbar Organ/Music for the Quiet Hour (2012,  Woe to the Septic Heart)

Nota: 7.8/8.0
Para quem gosta de: Andy Stott, Burial e Appleblim
Ouça: os dois discos