"Mutant"

Ano: 2015
Selo: Mute
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: FKA Twigs, Oneohtrix Point Never
Ouça: En, Sinner e Vanity
Nota: 8.6

Disco: “Mutant”, Arca

 

Alejandro Ghersi não poderia ter pensado em um título mais inteligente para o segundo álbum como Arca do que Mutant (2015, Mute). De fato, desde a estreia do produtor venezuelano, em 2012, a incerteza das batidas e imagens – assinadas pelo parceiro Jesse Kanda – servem de estímulo para cada composição produzida pelo artista. Uma permanente desconstrução ampliada durante o lançamento do álbum Xen, em 2014, mas que se revela de forma ainda mais assertiva e perturbadora nos mais de 60 minutos do presente álbum.

Livre da vitrine de possibilidades explorada no trabalho entregue há pouco mais de um ano, em Mutant, Arca conquista uma obra que mesmo torta, essencialmente instável, mantém firme a relação de similaridade entre as faixas. Em um explícito exercício de aproximação, cada música parece servir de estímulo para a composição seguinte, resultando em um registro que lentamente oculta as próprias lacunas e se completa.

São colagens eletrônicas (Sinner), vocais explorados como instrumentos (Anger) e até a interferência atípica de instrumentos, marca de Gratitud, 13ª faixa do disco e composição que parece extraída do clássico Endless Summer (2001), do produtor austríaco Fennesz. Observado de forma atenta, mais do que um exercício de criação, com o segundo álbum de inéditas, Arca se concentra em “homenagear” e resgatar o trabalho de diferentes nomes da música experimental – antiga ou recente.

Difícil não lembrar de Oneohtrix Point Never nos ruídos sobrepostos de En, uma típica canção do álbum Replica (2011). O mesmo vale para nomes como Tim Hecker, Laurel Halo, The Haxan Cloak e outros produtores que partilham da mesma essência musical que Ghersi e parecem dissolvidos no interior do trabalho. A própria relação de Arca como produtor de Vulnicura (2015), último registro de inéditas da cantora Björk, se reflete em músicas como Snakes e Soichiro, possíveis sobras do trabalho assinado em parceria.

Ainda que se sustente de forma inventiva em cima das batidas e temas eletrônicos arquitetados pelo produtor, Mutant é um trabalho que precisa ser observado em proximidade ao rico catálogo de imagens que cercam a obra. São enquadramentos fetichistas, como no clipe de En, a exposição do próprio corpo de Ghersi em Soichiro e Vanity, e até mesmo cenas marcadas pelo erotismo, proposta que abastece o clipe dirigido por Jesse Kanda em Front Load.

Passeio detalhado pelo universo de referências – sonoras e visuais – que ocupam a mente de Ghersi, Mutant joga com a interpretação do ouvinte durante toda sua execução. Fragmentos que passeiam por diferentes fórmulas, bases instrumentais, ruídos e épocas sem necessariamente romper com o universo monstruoso, sempre mutável e sombrio que pouco a pouco se espalha no interior de cada uma das 20 canções da obra.

 

 

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