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Disco: “Nação Zumbi”, Nação Zumbi

Nação Zumbi
Brazilian/Mangue Beat/Alternative
http://www.nacaozumbi.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Nação Zumbi

Não pense que você é o primeiro/ A pensar desse jeito/ Alguém já deve ter pensado igual/ Em algum outro lugar“. Os versos que flutuam no interior de Defeito Perfeito, quarta faixa do oitavo e mais recente álbum da Nação Zumbi, traduzem com perfeição as redundâncias românticas de qualquer personagem de coração partido. Base para toda uma variedade de projetos que exploram com melancolia versos, gêneros e diferentes arranjos, a temática da separação também é a escolhida para o novo álbum do grupo pernambucano, trabalho que chega passadas duas décadas do debut Da Lama ao Caos (1994), e reforça um novo posicionamento conceitual por parte da banda.

Em um sentido de continuidade ao desdobramento “pop” gerado em Fome de Tudo, de 2007, o novo álbum do coletivo de Recife apaga de vez a herança regional da banda, transformando o disco em uma (quase) comum obra de desamor. Da dor escancarada que ocupa as marcas e versos de Cicatriz, ao chamado para uma nova paixão em Pegando Fogo, a proposta do grupo agora é outra, muito mais simples, muito mais humana. Esqueça a ficção científica em Futura (2005) ou o ambiente eletro-orgânico de Afrociberdelia (1996). Dentro do autointitulado novo disco Jorge DuPeixe canta “apenas” sobre as múltiplas interpretações do amor.

Ainda que ecoe como um posicionamento inédito dentro da trajetória da Nação Zumbi, basta voltar os ouvidos para o primeiro disco do grupo, em 1994, e perceber como a mesma temática sempre esteve presente, apenas compactada. O que é Risoflora e seus versos sobre uma vulva metaforizada se não uma “tentativa” de Chico Science em “cantar sobre o amor”? – “E quando estou contigo eu quero gostar/ E quando estou um pouco mais junto eu quero te amar“. Com o novo álbum, entretanto, o sexo e a luxúria de outrora são amortecidos, abrindo passagem para que os dramas brilhem de forma escancarada.

Ao clamar por uma musa imaginária em Nunca Te Vi (“Vivo da promessa de encontrar você/ Nunca te vi, sempre te amei“), ou se perder na confusão de um pós-relacionamento com Um Sonho (“Não sei se sonhava o meu sonho/ Ou se o sonho que eu sonhava era seu“), DuPeixe e os parceiros de banda cravam um disco orgânico, íntimo do ouvinte e ausente de possíveis bloqueios. De fato, é estranho em uma primeira audição perceber o diálogo do grupo com a MPB de Marisa Monte, na doce A Melhor Hora da Praia. Afinal, onde estão os batuques enérgicos? A colagem de rimas, ritmos e experiências musicais? Tudo no disco soa como um aviso, a comprovação de que até mesmo os homens robóticos da Nação Zumbi também são capazes de sofrer.

Como dois guias para o presente álbum, Berna Ceppas e Kassin, produtores do disco, auxiliam o coletivo a compactar os arranjos antes expansivos do grupo. A percussão intensa, a guitarra versátil de Lúcio Maia e os pequenos ensaios eletrônicos, tudo ainda faz parte do universo da banda, porém, agora tratados de forma dissolvida. Sobram arranjos de cordas, sintetizadores e um cuidado evidente na voz de DuPeixe, que pela primeira vez ecoa curvilínea, quase harmônica e completamente distante do martelar robótico dos últimos discos. Não por acaso as letras são absorvidas sem grandes dificuldades, sugando o ouvinte para dentro do plano sorumbático da obra.

Como a típica dor de uma separação – que um dia surge involuntária, mas aos poucos desaparece -, o novo álbum atenta para a mesma efemeridade. Um instante triste, mas de pura assertividade. Brusca quebra dentro da trajetória da banda? De forma alguma, trata-se apenas da exposição segura de toda uma variedade de elementos antes testados timidamente pelo grupo. Ideias avulsas que talvez ecoassem de forma inexata nos últimos lançamentos da Nação Zumbi, mas que encontram um ambiente exato no interior em expansão do novo disco.

 

Nação Zumbi

Nação Zumbi (2014, SLAP/Som Livre)
Nota: 7.9
Para quem gosta de: Mombojó, Otto e Maquinado
Ouça: A Melhor Hora da Praia, Um Sonho e Cizatriz


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