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Disco: “Nada Pode Me Parar”, Marcelo D2

Marcelo D2
Brazilian/Hip-Hop/Rap
http://nadapodemeparar.com.br/

Por: Cleber Facchi

Marcelo D2

Uma década separa o Marcelo D2 de A Procura da Batida Perfeita (2003) da figura que caminha com sobriedade pelos versos de Nada Pode Me Parar (2013, EMI). Em dez anos de atuação, pouco parece ter se mantido de forma estável na carreira do rapper carioca. Da entrega completa ao samba, em Meu Samba É Assim (2006), ao mergulho leve pelo pop, com A Arte do Barulho (2008), até a necessidade em regravar Bezarra da Silva no estranho álbum de 2010, cada registro apresentado pelo ex-Planet Hemp trouxe na busca por transformação um efeito assertivo. Curioso que ao lançar o sexto disco solo, D2 regresse de forma voluntária a esse mesmo cenário tratado nos discos anteriores. Uma obra que atende ao retrospecto, mas não esquece de olhar para frente.

Se ao apresentar o segundo registro solo o rapper assumia um posto de isolado dentro do rap nacional – naquele momento, antecipando tendências que só viriam a ser entendidas em completude anos mais tarde -, ao alcançar o presente registro, D2 assume um distanciamento ainda maior em relação ao que conduz a produção recente. Nada do que circula pelo disco esbarra no discurso político de Emicida, Criolo, ou qualquer grande representante da cena alternativa. Assim como no esforço inaugurado no debut Eu Tiro é Onda (1998), a obra do rapper é delimitada em seu próprio universo, com se todos os demais elementos fossem abordados de forma a circundar o “egoísmo” irônico do artista.

Parafraseando diversas marcas apresentadas no álbum de 2003 – indo de Vai Vendo aos versos de Loadeando -, cada composição abordada ao longo da atual obra mergulha em memórias recentes, como se passado e presente se misturassem na trama lírica exposta no registro. Trata-se do mesmo Marcelo D2 firmado há uma década, porém, consumido pelo maturidade amarga do presente ou talvez em uma extensão ainda mais sarcástica de si próprio. A exposição constante sobre cotidiano esbarra em conceitos próximos da ostentação, marca assumida nos dólares, euros e luxos que flutuam pelo versos do trabalho. Tal efeito talvez desmotive a “engajada/politizada” nova geração de ouvinte do rap brasileiro, mas que serve para posicionar D2 em algumas das faixas mais bem exploradas e ácidas de toda a carreira do rapper.

No bolso um Rolex, admiro um artigo caro/E agora que tenho não vou mudar o que falo”, entrega logo na abertura com MD2, faixa que inaugura o disco e toda a individualidade das canções. Longe do cenário redundante que cada vez mais estigmatiza o rap em uma atmosfera de dramas ininterruptos, D2 acerta ao falar de si próprio, valorizando de forma curiosa tudo aquilo que outros representantes do Hip-Hip nacional são ou gostariam de ser, mas jamais teriam a capacidade de assumir em público. Mais do que escrever sobre si próprio, o rapper firma um retrato exposto sobre qualquer indivíduo, um jogo de tramas e rimas mesquinhas tão ou mais honestas quanto qualquer outro recorte urbano tratado pelo gênero.

Mais uma vez acompanhado de Mário Caldato Jr. – que além de atuar ao lado do próprio D2, já trabalhou com artistas como Beck e Beastie Boys -, o rapper encontra no álbum uma obra para brincar com os sons e samples. Assim como nos trabalhos anteriores, cada faixa do registro se perde em meio a sambas antigos, canções esquecidas da década de 1970 e toda uma base melódica que alicerça com acerto a obra do artista. Basta o toque nostálgico de Vou por ai ou reforço pueril que passeia em Você diz que o amor não dói para perceber os esforços da dupla com o novo álbum. Talvez o maior destaque fique por conta das rimas e recortes em inglês que se espalham lentamente pelo trabalho, efeito limitado dentro dos último discos.

Cercado por um pequeno time de colaboradores – incluem membros do ConeCrewDiretoria, o cantor norte-americano Aloe Blacc, além do filho Stephan (agora Sain) -, D2 faz do registro um trabalho de descompromisso e ao mesmo tempo ruptura com o que ocupa a produção presente. Sem se entregar aos exageros, críticas e possíveis ensaios políticos de tantos outros representantes da cena nacional – ou mesmo da própria obra conquistada com o Planet Hemp -, D2 acerta ao focar com acidez em si mesmo, o que talvez cause irritação em muita gente, mas revele horas de aprazível audição para outros.

 

Marcelo D2

Nada Pode Me Parar (2013, EMI)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: De Leve, ConeCrewDiretoria e Planet Hemp
Ouça: Vou Por Aí, Voce diz que o amor não doi e Feeling Good