Disco: “Native Speaker”, Braids

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Braids
Canadian/Indie Pop/Experimental
http://www.myspace.com/braidsmusic

Por: Cleber Facchi

Embora pareça um dos gêneros mais fáceis de serem delimitados, explicar o que seria a música pop ao longo dos últimos anos talvez tenha se transformado em uma das tarefas mais difíceis de serem realizadas. Um bom exemplo disso está em nos depararmos com o trabalho de estreia da banda canadense Braids. Composto de apenas sete faixas, Native Speaker (2011, Flemish Eye Records) parece agregar todos os elementos que o delimitariam como um disco pop e comercial, afinal, os vocais pegajosos, melodias grudentas e uma fluidez agradável se fazem presentes, entretanto, para além deste conjunto de referências, o quarteto de Calgary, Alberta parece ter encontrado uma sonoridade que os arremessa para além de qualquer tradicionalismo radiofônico.

Ouvir qualquer uma das composições que delimitam o doce álbum é como ser imediatamente transportado para 1993, quando Björk, recém saída de sua antiga banda acabava de lançar sua estreia dançante, pop e excêntrica com Debut. Talvez seja possível voltar ainda mais no tempo, para meados de 1988, quando a antiga banda da cantora islandesa, o The Sugacubes lançava seu primeiro álbum de estúdio, o hoje clássico Life’s Too Good. Ainda pela década de 80 é possível se aventurar pelos sons propostas pelo Siouxsie and the Banshees ou por outros artistas similares, fazendo desse vasto conjunto de fontes aquilo que parece definir cada segundo de cada canção que formaliza a estreia do Braids, um disco pop, mas que não se resume somente a isso.

Como o próprio nome da banda já anuncia – “tranças” em inglês -, a sonoridade do grupo formado por Raphaelle Standell-Preston (vocal e guitarra), Katie Lee (teclados), Taylor Smith (guitarra) e Austin Tufts (bateria) parece trançar não apenas um conjunto de referências antigas (porém mais do que eficientes), mas sabe como se envolver com o que há de mais recente na música alternativa e experimental, o que talvez torne o rótulo de “pop” que acompanha a banda algo muito mais amplo e detalhista do aparenta ser.

Cada uma das sete faixas do disco (que juntas geram mais de 40 minutos de duração) parecem se manter o tempo todo divididas entre o etéreo, o onírico, o místico e o real, deixando que o ouvinte flutue em uma câmara imaginária, experimentando cada uma dessas diferentes experiências instrumentais e sensoriais. Nos mais de oito minutos que correspondem à faixa título, por exemplo, a banda delimita um tipo de som que se aproxima dos rítmos enevoados e místicos do Sigur Rós, te traz de volta para a realidade, te arremessa para uma sequência de sons psicodélicos, ruídos cósmicos, vocais fáceis e radiofônicos, esbanjando toda a maestria do quarteto em fazer de suas músicas um verdadeiro passeio instrumental.

A excentricidade que toma conta de algumas das faixas acabam involuntariamente trazendo o álbum para próximo de gente como Animal Collective, um pouco de Dirty Projectors em alguns momentos, a climatização neo-psicodélica que delimita os trabalhos de Panda Bear e Avey Tare, os sons sintetizados do M83 e quem sabe até um pouco do Drone eletrônico do Fuck Buttons, tudo isso sem nunca perder a fluidez adocicada e suave que movimenta todas as densas (e ainda assim esvoaçadas) canções do álbum.

Native Speaker é como ter em sua frente uma dessas cantoras adolescentes que tanto invadem canais de TV, programas de rádio ou que ecoam a todo momento em algum aparelho de som vizinho, porém não mais donas de um som redundante e efêmero, mas de algo épico, mágico e experimental. É como ter Miley Cirus presa dentro de Ágætis byrjun do Sigur Rós, Selena Gomez passeando pelas faixas de Merriweather Post Pavilion ou quem sabe Demi Lovato dissolvida em Person Pitch. Um registro que quebra lógicas, corrompe sons e ainda assim parece tão fácil e acessível quanto qualquer outro disco de música pop.

Native Speaker (2011, Flemish Eye Records)

Nota: 8.1
Para quem gosta de: PURITY RINGS, Björk e Panda Bear
Ouça: Native Speaker

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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