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Disco: “Needs”, Giraffage

Giraffage
Electronic/R&B/Experimental
http://giraffage.com/
http://giraffage.bandcamp.com/

 

Todas os desejos e sonhos do californiano Charlie Yin estão dentro de Needs (2013, Alpha Pup). Imenso cardápio de sons, tendências, samples e emanações Lo-Fi que percorrem diferentes décadas, o trabalho do produtor conhecido como Giraffage parece dar continuidade aos mesmos sons caseiros que abasteceram a Chillwave há alguns anos. Uma quebra das referências estabelecidas com base na década de 1980, e uma completa absorção de parte fundamental do que marcou a eletrônica, o R&B e até mesmo o pop dos anos 1990. Um verdadeiro bloco de sons possivelmente desordenados nas mãos de outros artistas, porém, cuidadosamente aplicados no primeiro álbum do produtor de São Francisco.

Contrário ao fenômeno de artistas cada vez mais interessados em reviver a sonoridade letárgica e o romantismo que se apoderou da música negra na década de 1990, Yin assume na faixa de abertura, Close 2 Me, uma completa reformulação dos sons estabelecidos há duas décadas. Dolorosa e íntima, a canção fragmenta sons atmosféricos em meio a batidas brandas, um cenário perfeito para que os versos dolorosos da canção, assim como os vocais eletrônicos do produtor, orientem toda a melancolia que se apodera do restante da obra. De aspecto artesanal, a faixa muda o ritmo de forma brusca, sobrepondo elementos de maneira intencionalmente desordenada, porém de maneira essencial para identificar a não linearidade como Giraffage garante vida ao disco e às demais canções.

Por vezes íntimo das mesmas execuções sonoras que abastecem o trabalho de Washed Out e Toro Y Moi (principalmente no álbum Causers Of This, de 2010), Yin parece perverter a própria obra em cada nova composição. Se por um lado Money parece arrastar Frank Ocean para o mesmo terreno obscuro de Andy Stott, Undress U e a relação com o R&B Pop de Beyoncé rompe com essa proposta. De batidas suavizadas, a canção se manifesta como um nítido produto do bloco inicial de composições que abastecem o disco 4 (2011), a diferença está na forma como os vocais sujos se relacionam diretamente com a ambientação climática tratada por How To Dress Well em Love Remains (2010).

Dentro desse jogo constante de faixas que se alimentam de distintas preferências musicais, Yin possibilita o crescimento de músicas capazes de romper com a própria atmosfera comportada que inicialmente comanda do disco. Em Checkmate, por exemplo, o ritmo semi-funkeado e dançante da composição estabelece uma curiosa relação entre Channel Presure da dupla Ford & Lopatin, com os mesmos sintetizadores e suspiros de Galactic Melt do Com Truise. Até quando regressa ao ambiente confortável de Before, em poucos instantes Giraffage trata de ampliar esse universo, trabalhando a música da década de 1980 não como um revisionista, mas como se buscasse imprimir uma marca própria.

Muito embora o clima do trabalho flutue em camadas de sonorizações eróticas, as letras identificam um resultado de completa oposição e honesta melancolia. Por vezes raros ou articulados como recortes musicais espalhados pela obra, os versos trabalhados no decorrer do disco tem para Charlie Yin a mesma importância que para William Bevan (Burial). Não parecem feitos para o canto, pelo contrário, são complementos às lacunas instrumentais produzidas pelo norte-americano. Em All That Matters, por exemplo, ainda que os vocais graves deem sequência ao composto denso formatado por Giraffage, parte disso se sustenta em um acolchoado de vocais femininos transformados em bases para a canção, proposta que se repete de forma ainda mais rica no decorrer do trabalho.

Ao transformar marcas recentes e antigas do cenário musical em um tipo de sonoridade própria, Giraffage se esquiva de qualquer exagero ou resultado copioso que possa habitar as composições que recheiam Needs. É possível durante toda a audição do disco captar preferências por vezes opostas, estratégia que converte cada audição do disco em um resultado de natural descoberta. Como avisa logo no título do registro, Yin transforma o álbum em um projeto de essência própria, quase uma representação da vontade de brincar com marcas tão desgastadas dentro de um direcionamento não linear, porém coeso, quando observado como um todo. Uma criança que acaba de ganhar um quebra-cabeças de aniversário, porém, resolveu encaixar as peças sem uma ordem específica.

 

Giraffage

Needs (2013, Alpha Pup)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Shlohmo, How To Dress Well e Balam Acab
Ouça: Close 2 Me, Undress U e Thinking About You

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4 thoughts on “Disco: “Needs”, Giraffage

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