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Disco: “Nepenthe”, Julianna Barwick

Julianna Barwick
Experimental/Ambient/Dream Pop
http://www.juliannabarwick.com/

Por: Cleber Facchi

Julianna Barwick

Espécie de entidade mística das florestas, Julianna Barwick atravessou a construção de The Magic Place (2011) como se apresentasse ao público parte do cenário fantástico em que habita. Trazendo na orquestração dos vocais a base para a composição do trabalho, a compositora fez de cada sublime faixa do registro um passeio por entre dimensões e ambientes efêmeros, redutos sonoros que praticamente se dissolvem na mente do espectador. Focada em uma interpretação obscura das melodias artesanais do Dream Pop e sempre próxima das repetições etéreas do Drone, Barwick usa da mesma fórmula para brincar com as composição de Nepenthe (2013, Dead Oceans), segundo disco da carreira e curiosamente um oposto das harmonias impostas há dois anos.

De natureza essencialmente noturna, o novo álbum inverte as climatizações matutinas do primeiro disco de forma a brincar com as experiências do ouvinte. Trata-se de um trabalho firmado em ambiente complexo, detalhista por natureza e distante do esforço homogêneo que a artista proclama desde o EP Florine (2009). Como se brincasse o lado “acessível” e as canções expostas em músicas como Vow e Prizewinning, Barwick deixa de lado o plano letárgico dos vocais para brindar o ouvinte com o experimento e a inclusão de toda uma nova carga de instrumentos. Há com isso a abertura para um novo cenário, um tratamento que opta pela novidade, mas em nenhum instante se distancia das bases primordiais da compositora.

Seguindo a trilha deixada por Liz Harris (Grouper) em The Man Who Died In His Boat (2013), Barwick envereda para um trabalho que mesmo tratado em estrutura uniforme, valoriza nuances específicas das próprias composições. Assim, ao mesmo tempo em que canções como One Half e Look Into Your Own Mind se relacionam conceitualmente, o desenvolvimento de cada faixa parte de um reforço pontual, como se diversos caminhos fossem abertos individualmente no decorrer da obra. Há desde composições movidas pelo agrupado climático de vozes (vide Labyrinthine), revivendo a estrutura imposta em The Magic Place, até faixas que se adornam de detalhe e renovação, transportando a artista para todo um novo catálogo de possibilidades.

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Enquanto The Magic Place parecia proposto em totalidade, como se todas as músicas fossem uma, Nepenthe traz na manifestação individual das canções um efeito específico. Em Crystal Lake, por exemplo, o destaque não está nas camadas de vozes que tanto marcam a obra da artista, mas nos mínimos pigmentos eletrônicos que se derramam com parcimônia pela canção. Outro detalhe e claro acerto está nos atos que fracionam a construção interna de várias músicas. One Half, por exemplo, abre como uma típica composição de Barwick, criando uma base vocal que lentamente se deixa substituir pela presença de versos bem definidos, quase cantaroláveis. Todos estes elementos se fazem imprevisíveis se levarmos em conta a composição densa que praticamente fundia as criações da artista há poucos meses.

Mais do que ressaltar aspectos de plena inovação dentro da própria obra, Barwick incorpora com o novo disco uma extensão das parcerias que encontrou ao longo dos anos. Enquanto os ruídos e mínimas maquinações sintéticas borbulham como uma observação sonora da parceria com Ikue Mori, a presença bem solucionada dos vocais reverbera marcas delicadas do encontro com Roberto Carlos Lange (Helado Negro) com o Ombre. Claro que a musicista em nenhum instante rompe com as bases que tanto caracterizam sua obra, utilizando de marcas específicas das parcerias apenas como um complemento, uma pitada de transformação dentro das ambientações dispostas.

Tratada como uma droga do esquecimento na Mitologia Grega – possivelmente um anestésico como bem representado em Odisseia, de Homero -, Nepenthe assume na sonoridade o mesmo efeito que em sua herança mítica: Uma obra que lentamente desaparece, amortece, e se entrega ao fragmento de maneira intencional. Julianna Barwick cria ao longo do registro uma morada passageira, como se tudo o que é proclamado pelo álbum desvanecesse, obrigando o espectador a mergulhar intencionalmente no invento sonoro do registro antes que ele desapareça por completo.

 

Julianna barwick

Nepenthe (2013, Dead Oceans)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Grouper, Julia Holter e Mirroring
Ouça: One Half, Forever e Crystal Lake