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Disco: “Night Time, My Time”, Sky Ferreira

Sky Ferreira
Pop/Electronic/Alternative
http://skyferreira.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

A lírica melancólica e a aura típica de Madonna em começo de carreira apresentaram de fato Sky Ferreira em Everything Is Embarrassing. Matéria explícita da proposta moldável da artista, a canção assinada por Dev Heynes (Blood Orange) veio como uma representação exata da fragilidade da norte-americana – entregue aos domínios, versos e arranjos de cada produtor. Entretanto, longe de seguir a trilha de Lana Del Rey, ou mesmo gigantes da música pop, a artista californiana trouxe na imposição autoral um exercício de distanciamento de outras cantoras recentes. Um tipo de manifestação talvez irregular na construção dos EPs AS IF! (2011) e Ghost (2012), mas solucionada em um enquadramento não óbvio e essencialmente melódico com o debut Night Time, My Time (2013, Capitol).

Cercada pelos holofotes, Ferreira, diferente de nomes como Charli XCX, Haim e outras artistas próximas, soube como usar (e ser usada) pela mídia com verdadeira maestria. Dos problemas com drogas à prisão recente, passando pela série de adversidades em relação ao processo de gravação do disco, os meses que se seguiram ao lançamento de Everything Is Embarrassingcujo clipe mais parece uma “vitrine” para os dotes da artista -, apenas ampliaram o turbilhão em torno de Sky. É justamente dentro desse cenário que a cantora encontra as bases para alimentar toda a formação do debut. Uma obra de pleno recolhimento pessoal, porém exposta, como se o mundo à parte da artista fosse (mais uma vez) escancarado ao público.

Ninguém me perguntou se eu estava bem”, grita Ferreira nos versos de Nobody Asked Me (If I Was Okay), canção que representa com acerto (e tristeza óbvia) toda a arquitetura desenvolvida lírica e musicalmente para o disco. Entregue aos comandos da dupla Ariel Rechtshaid (Vampire Weekend, Haim) e Justin Raisen (Charli XCX, Tegan and Sara), com quem vem trabalhando há bastante tempo, a cantora foge das pequenas rupturas expostas previamente – principalmente no último EP – para trilhar um grupo de composições sempre próximas. Do pop obscuro de 24 Hours aos sintetizadores neon de You’re Not the One, cada faixa da obra se relaciona abertamente com a década de 1980, porém, sem fixar nisso uma imposição estética ou de beleza conceitual.

Night Time, My Time, como o título e a sorumbática imagem da capa – captada pelo cineasta Gaspar Noé – logo anunciam, é um disco movimentado pela solidão. Ainda que consiga vender um cardápio imenso de composições abertas ao grande público, Ferreira só alcança esse resultado ao custo da própria sanidade. Cada música exposta pela cantora arrasta o ouvinte para um cenário de isolamento, saudade e melancolia, conjunto de experiências amargas que orquestram a fuga romântica em 24 Hours (“I wish these 24 hours/ Would never end”), a culpa em I Blame Myself (“Debaixo de tudo/ Eu sei que a culpa não é sua”) ou mesmo o próprio enclausuramento, explícito na construção da faixa-título, que fecha o disco.

Embora detalhado como um típico exemplar da música pop, o debut de Sky Ferreira está longe de seguir os mesmos passos de Miley Cirus, Katy Perry ou qualquer outra grande representante do gênero. Ao entregar o registro em totalidade para a dupla Rechtshaid e Raisen, a californiana encontra conforto em uma obra instrumentalmente coesa, pronta em totalidade. Da abertura, em Boys, ao fechamento, todas as músicas partilham de um mesmo enquadramento, o que faz com que ao alcançar a estranha Omanko ou mesmo a suja Kristine – faixas mais “experimentais” e “difíceis” da obra -, isso esteja longe de ser encarado como um equivoco. Trata-se apenas de mais uma representação do isolamento de Sky, como espionar a brecha mais torta da mente da artista.

Jogo de possibilidades presentes e futuras, Night Time, My Time abre espaço para que a cantora decida os rumos da própria obra. Se You’re Not the One é a indicação de um cenário cada vez mais óbvio, pop em essência, então músicas como Omanko e a canção-título focam no oposto. É visível o quanto os produtores estabeleceram um grau de urgência sobre o disco ou mesmo em relação à própria carreira da artista, afinal, é essa incerteza dos possíveis rumos de Ferreira que fazem do álbum um registro tão aprazível e significativo. Por toda a obra há uma sensação de que tudo pode desaparecer quando os holofotes forem apagados. Dentro desse caráter de efemeridade e possível extinção, Sky Ferreira talvez seja o melhor “produto” que a música pop tem a oferecer em 2013, e se eu fosse você, consumiria antes que ele chegasse ao fim.

 

Night Time, My Time (2013, Capitol)

Nota: 8.4
Para quem gosta de: Charli XCX, Grimes e Lana Del Rey
Ouça: Nobody Asked Me (If I Was Okay), I Blame Myself e 24 Hours


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