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Disco: “No Cities to Love”, Sleater-Kinney

Sleater-Kinney
Indie Rock/Rock/Alternative
http://www.sleater-kinney.com/

Havia uma sensação de “dever cumprido” quando o hiato do Sleater-Kinney foi anunciado em junho de 2006. Além do fortalecimento no discurso/poesia em relação aos primeiros trabalhos em estúdio, um ano antes, com a entrega de The Woods (2005), o grupo parecia ter alcançado mais do que um “refinamento estético” na próprio som. Depois de uma década de experiência e continua renovação, o trio conseguiu delimitar um influente cercado autoral; uma espécie ambiente seguro, compartilhado e base para crescimento de projetos também inspirados pela mesma temática progressista do grupo.

Em No Cities to Love (2015, Sub Pop), oitavo álbum em estúdio da banda, Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss regressam ao mesmo território criativo de 2006, entretanto, uma leve alteração no lirismo da obra indica a explícita ruptura no discurso do grupo. De forma lenta, porém expressiva, o trabalho parece sufocar em uma atmosfera de forte incredulidade, frieza e pessimismo, conceito inicialmente ressaltado de forma simbólica nas flores murchas que estampam a capa do disco.

Produtor do álbum e parceiro de longa data do trio, John Goodmanson encontra na captação limpa dos instrumentos uma ponte para a temática cinza que define os versos. Com exceção do som flexível, quase pop, da faixa-título, não seria um erro encarar NCTL como o trabalho mais acelerado, cru e “punk” do grupo desde a transformação melódica em All Hands on the Bad One (2000). Dez faixas, pouco mais de 30 minutos de duração, tempo suficiente para flertar com veteranos do cena punk nova-iorquina e ainda resgatar peças autorais, vide o som “caseiro” de Fade, quase um retalho de Dig Me Out (1997).

Como a banda enfatiza na inaugural de Price Tag – “Eu fui atraída pelo diabo / Atraído pelo preço” -, em se tratando dos temas explorados pela obra, pouco foi alterado desde o início do recesso há nove anos. Tal qual o registro homônimo que revelou o grupo em 1995, No Cities to Love explode em meio a temas políticos, feminismo, críticas ao consumismo excessivo e até histórias românticas/confessionais – caso da amarga Hey Darling. A diferença em relação ao antigo acervo do grupo está no sentimento de conformismo e desgaste que invades as canções, marca explícita na referencial No Anthems.

Isolada, como um fragmento esquecido do Rock Alternativo no fim dos anos 1980, a canção de base ruidosa reflete todo o pessimismo temático do disco. Enquanto guitarras distorcidas esbarram na bateria seca de Janet Weiss, a voz limpa de Corin Tucker entrega: “Eu não sou o hino / …Não existem mais hinos / …Eu quero um hino / Um hino singular / Uma resposta e uma força / Para sentir o ritmo em silêncio“. Um misto de descrença e continuo enfrentamento que parece sintetizar não apenas o registro, mas a recente fase do trio.

Encarado com provocativa sobriedade, este talvez seja o registro mais pessoal e acessível já produzido pelo grupo. Por vezes descritivo, como uma transcrição detalhada de cenas urbanas, pessoais e pequenos recortes cotidianos, No Cities to Love carrega nos versos a imagem de um indivíduo amargurado. A representação de cada integrante da banda como um personagem de meia-idade, ainda ativo e motivado pela oposição ao conservadorismo, porém, ciente da própria incapacidade de mudar o mundo.

 

No Cities to Love (2015, Sub Pop)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Wild Flag, Ex Hex e Screaming Females
Ouça: No Anthems, Price Tag e Bury Our Friends

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3 thoughts on “Disco: “No Cities to Love”, Sleater-Kinney

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