Disco: “O Destino Vestido de Noiva”, Fabio Góes

/ Por: Cleber Facchi 21/06/2011

Fabio Góes
Brazilian/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.myspace.com/fabiogoes

Por: Cleber Facchi

 

Foram raros os que deram devido valor ao primeiro trabalho solo do músico, compositor e produtor musical Fabio Góes na época de seu lançamento. Feito um indivíduo vindo dos subúrbios, reconhecido por poucos, mas que busca por um merecido posto no panteão de nomes que figuram no topo de uma grande metrópole, o músico lentamente teve seu melancólico Sol no Escuro (2007) sendo absorvido e compreendido por seus parcos ouvintes. Percorrendo em indicações sussurradas, blogs ou veículos de comunicação menores, o delicado registro aos poucos ganhou força, cresceu e acabou acolhido por mais um sem número de admiradores, figurando de maneira justa entre os melhores álbuns da última década.

Quatro anos mais tarde, Góes retorna, desta vez melhor familiarizado com o cenário que aos poucos soube o absorver, propondo mais uma trama suave de canções, construída com a mesma peculiaridade rítmica que ressaltou em seu primo álbum. Menos denso que o debut de 2007, O Destino Vestido de Noiva (2011) retrata um artista ainda mais habituado aos sons e temáticas que trouxe em sua inicial obra, mantendo as mesmas climatizações e a mesma fluência proposta, porém, trazendo um novo catálogo de possibilidades instrumentais e poéticas a serem desenvolvidas com o mesmo empenho que o da estreia.

Se no primeiro álbum de Góes a metrópole se transformava na grande musa do artista, pontuando com suas cores cinzas os versos e as sensações propostas nas faixas, em seu segundo trabalho o mesmo indivíduo que um dia resolveu se entregar/integrar à cidade, agora se afasta dela. Embora a tonalidade sombria do músico – ressaltada tanto em sua voz, quanto principalmente em suas melodias – ainda se manifeste em grande parte das 12 composições do álbum, os rumos parecem ser outros. O colosso de prédios, bairros centrais e todos os personagens de outrora lentamente se afastam, com Fabio quase descrevendo o que encontra nos princípios de sua mudança.

A sensação constante de “adeus” e a nostalgia que percorre o disco vai aos poucos moldando canções como Nossa Casa, em que versos como “A porta acostumou te ver passar/ O espelho acostumou com seu olhar/ Com seu sorriso na nossa casa” vão se derramando em meio aos arranjos sorumbáticos do instrumental de Góes. “Só penso em correr, fugir/ Poder descansar no fim… Eu vou me refazer com os pés descalços”, canta ele em Frágil, sempre repassando a mesma temática de partida, algo que se repete ainda em Fugindo (“não sei quando vou voltar/ já fui de novo”), mais uma vez apontando essa busca por novos territórios, sejam eles físicos ou emocionais.

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Mesmo que ainda exista uma constante ligação com a música brasileira, algo que vinha desde o primeiro disco em pérolas como Mundo Acumulado e Automático, em seu segundo trabalho o produtor cerca-se por uma grandiosidade instrumental que ressalta todas as predisposições aos sons do Post-Rock, algo já bastante ocupado em sua estreia. Não é preciso nem a instrumental Incenso (uma das mais belas do álbum) para observar tal formatação no registro. Nossa Casa, A Escolha (lembrando muito o Explosions In The Sky do disco The Earth Is Not a Cold Dead Place) ou Frágil se aprofundam na criação de melodias mais amplas, sempre organizadas de maneira crescente e pontuada por uma coleção de instrumentos, inviabilizando a construção de algo que soe de forma simplista.

Há entretanto composições que demonstrem o caráter mais “acessível” do trabalho, ou que carregue certo tempero brasileiro, quebrando uma lógica única do álbum. A Rua é uma dessas canções, com Góes – acompanhado por Dudinha, Curumin e Luiz “LQ” Mattos no coro de vocais – movimentando uma sonoridade suingada. Da ampla escolha por novos formatos, o músico acaba adentrando terrenos diferenciados, como na curtinha Sonho, conduzida unicamente pela voz e pelo piano do músico, em que através dos ruídos e da captação de sons ambientais transfere um caráter de “lo-fi” ao curto exemplar.

Se em Sol no Escuro a boa repercussão da faixa Sem Mentira (destaque através da série Alice, exibida pela HBO) foi um dos elementos responsáveis por apresentar o trabalho de Fabio Góes, destacando-se como a composição mais radiofônica do disco, para O Destino Vestido de Noiva o músico não produz apenas uma, mas uma série de pequenos concentrados de música “pop”. Da condução despojada da faixa de abertura, Tão Alto e Fora de Lugar, passando pelas convidativas Domingo e as Plantas, A Rua ou Amor na Lanterna (com a cantora Luísa Maita), tudo se apresenta de maneira a fisgar o ouvinte. Até nos momentos mais intimistas e sofridos da obra, como nas já mencionadas Frágil e Nossa Casa, a maneira agradável e melódica é o que dá destaque às composições.

O novo álbum de Góes parece começar exatamente de onde parou seu último registro. Como se fosse natural após nos depararmos com a comicidade da faixa Salmão adentrarmos a grandiosidade da atual Tão Alto e Fora de Lugar. Mesmo que o álbum perca por não retratar a mesma vastidão de ritmos encontradas no projeto de 2007 – que brincava com o jazz, hip-hop, samba e os mais variados estilos –  O Destino Vestido de Noiva ganha pela continuidade de sua obra, a concisão que percorre cada uma das faixas e o instrumental ainda mais surpreendente do trabalho. Se antes a obra de Fábio Góes era repassada em forma de sussurros, agora ela deve ser anunciada de maneira estrondosa, condizendo com a grandiosidade exposta em cada canto do trabalho.

O Destino Vestido de Noiva (2011)

Nota: 8.7
Para quem gosta de:
Ouça: Frágil

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Texto originalmente publicado na página de lançamento do novo disco do músico.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.