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Disco: “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, Lucas Santtana

Lucas Santtana
Brazilian/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.facebook.com/lucas.santtana.official

Por: Cleber Facchi

Embora tenha lançado o primeiro disco solo da carreira em idos de 2000, Eletro Ben Dodô, Lucas Santtana só parece ter surgido de fato para um pequeno nicho em meados de 2003, quando apresentou naquela época o descontraído Parada de Lucas. Impregnado pela variedade de ritmos – incluindo uma “versão” própria e bem humorada do funk carioca -, o trabalho propiciaria relativo destaque ao compositor, que naquele momento parecia muito mais conectado com uma soma de integrantes da nova safra da música brasileira (e também jornalistas) do que com o público em si, feito que em mais de uma década de atuação parece finalmente rompido.

Mesmo que o nome do compositor baiano ainda pareça intimamente relacionado com uma face “alternativa” da música e do público brasileiro, desde o lançamento do quase revolucionário Sem Nostalgia (2009) que Santtana tem se evidenciado como um dos personagens mais populares e ricos da nossa música. Espécie de resumo ou talvez conexão direta com os trabalhos iniciais do cantor, O Deus Que Devasta Mas Também Cura (2012, Dignóis), mais recente álbum do artista revela todo um novo conjunto de nuances musicais e líricas fabricadas por Lucas, que segue picotando melancolias e fundindo ritmos naquela que parece ser a mais forte obra do músico.

Assumidamente confessional – boa parte do disco é focado em um término de relacionamento não recente do músico -, o sucessor do acústico disco de 2009 rompe com a fórmula de um trabalho temático, possibilitando que Santtana alcance justamente aquilo que faz dele um especialista: a mistura de ritmos. Dinâmico e distante de quaisquer excessos (uma das marcas do baiano), o trabalho passeia por uma dezena de composições versáteis, faixas que absorvem os ritmos regionais, dançam ao som do Ska, flertam com o erudito e ainda assim conseguem soar tão acessíveis quanto qualquer outro achado radiofônico.

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Dividido constantemente entre o tom sorumbático e a estética calorosa que escorre da música nortista (ou mesmo do outros ritmos da World Music), o músico cultiva sem parcimônia um trabalho marcado pelas diferentes tonalidades. Se a abertura do disco com a amargurada faixa título parece arrastar o ouvinte para um desconfortável e lacrimoso estado musical, com a canção seguinte, Músico (com participação de Céu e lançada originalmente pelos Paralamas do Sucesso no disco Severino, 1994), Santtana rompe instantaneamente com essa lógica. Dentro desses constantes altos e baixos (sentimentais), o cantor segue projetando toda a arquitetura do disco, que permanece até os instantes finais dentro dessa fórmula agridoce e dicotômica.

Quando olha para esse aspecto triste do trabalho (que se relaciona diretamente com a capa e o título do álbum), Lucas faz nascer uma das mais belas (e sofridas) criações de sua carreira, Para Onde Irá Essa Noite?. Com uma lírica marcada pelos encontros e desencontros de um casal, a canção promove o que há de mais distinto na carreira do compositor, que acompanhado de um aprimorado grupo de instrumentistas promove uma música crescente, uma composição quase épica que explode sintomaticamente com a chegada dos agoniados versos do refrão, demonstrando mais uma vez a multiplicidade de caminhos percorridos ao longo do projeto.

Se em faixas como Ela É Belém (um dos grandes achados do lançamento) e Se Pá Ska. S.P., o músico reforça de maneira primorosa a conexão com os primeiros trabalhos – atingindo inclusive o dub suave de 3 Sessions in a Greenhouse de 2006 -, em sua maioria o presente registro soa como uma quase continuação do que fora proposto em Sem Nostalgia. As guitarras sampleadas em Jogos Madrugais, o sambinha leve em Dia de Furar Onda no Mar (que em muito lembra o Kassin da fase +2) ou mesmo os acordes característicos de O Paladino e Seu Cavalo Altar, tudo faz com que o disco soe como uma apurada (e até melhorada) sequência. Como se para além da fórmula “banquinho+violão” testada há três anos, Santtana pudesse acrescentar uma série de novos elementos ao seu projeto, fazendo do disco um trabalho característico do músico ao mesmo tempo que tomado pelo ineditismo.

O Deus Que Devasta Mas Também Cura (2012, Dignóis)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Wado, Curumin e Karina Buhr
Ouça: Ela É Belém e Para Onde Irá Essa Noite?

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