Disco: “O que você quer saber de verdade?”, Marisa Monte

Categories Melhores Discos, Resenhas

Marisa Monte
Brazilian/Female Vocalists/MPB
http://www.marisamonte.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Dentre todas as grandes representantes da nossa música Marisa Monte é e sempre foi a única capaz de promover uma carreira ao mesmo tempo sólida e versátil, dialogando de forma peculiar tanto com a grandiosidade do samba como com as tonalidades radiofônicas da música pop. O resultado dessa sonoridade sempre dicotômica está em seu amplo número de seguidores, indivíduos que há mais de duas décadas se entregam de maneira fiel aos registros da cantora, uma musicista que consegue encantar tanto o apurado julgo da crítica, como o diversificado público que a idolatra.

Sempre marcada pelo longo espaço entre um registro e outro, em 2006 a carioca apresentou ao mundo o que pode ser compreendido como a maior de suas obras, um trabalho “duplo” ou fragmentado em duas distintas frequências musicais. De um lado estava o melódico e acessível Infinito Particular, um registro que assumidamente se relaciona com a música pop e reforça algo que a cantora vinha explorando desde sua estraia em estúdio com o álbum Mais, de 1991. O resultado está em um jogo de composições fáceis, doces e incrivelmente capazes de tocar o grande público, algo bem representado pela melancolia de Pra ser Sincero e a delicadeza de Vilarejo, faixas que mais uma vez permitiram que a cantora circulasse pela programação de rádios ou canais de TV.

Do outro lado estava o álbum Universo ao Meu Redor e consequentemente a maioridade musical da carioca, diluindo um conjunto de sambas entristecidos e uma fluência instrumental (e lírica) que imediatamente se voltava ao clássico Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, registro que de fato consagrou a carreira da musicista. O encontro entre essas duas vertentes acabou por condensar toda a carreira de Monte, que mais uma vez se posicionou como uma das grandes, se não a maior, voz da nossa música.

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Passados exatos cinco anos desde que os dois suntuosos registros foram entregues pela cantora, chega finalmente a hora de nos encontrarmos com o sucessor daqueles dois álbuns, com Marisa imediatamente perguntando: o que você quer saber de verdade? Imersa em um conjunto de sons que dialogam diretamente com os dois registros anteriores, a cantora se assenta em uma maré de calmarias, esvoaçando composições permeadas pela delicadeza e a atmosfera suave de suas canções. Entre o samba e o pop, a carioca mais uma vez alcança a tradicional sonoridade simétrica de outrora, embriagando o ouvinte com um conjunto de composições sempre agradáveis e harmônicas.

Da faixa título ao fecho do registro se escondem (ou revelam-se) composições que reforçam a interação da cantora com uma série de importantes nomes da música brasileira. Seja o eterno parceiro Arnaldo Antunes (que aparece em 9 das 14 canções do disco), uma rápida transição pela música de Jorge Ben Jor (na doce Descalço no Parque) ou até a inédita contribuição do conterrâneo Rodrigo Amarante (no baião O que se quer), do princípio ao fim o álbum é visível o apego à identidade nacional da compositora, que mais uma vez garante uma coleção de admiráveis composições.

Suave até seus momentos finais, o registro evoca uma constante inclusão de sons puramente regionalistas ou elementos que reforçam o caráter essencialmente bucólico da obra da cantora. Se o reinado da musicista parecia abalado mediante a proliferação de novas contribuintes da música nacional – como a açucarada Tulipa Ruiz ou a versátil Karina Buhr –, com a chegada de seu sexto trabalho em estúdio mais uma vez temos uma comprovação da grandiosidade da carioca. Marisa Monte novamente transforma o universo ao nosso redor em uma sequência de exaltações ao seu infinito particular, atendendo às demandas de seu público e fornecendo exatamente o que ele quer saber de verdade.

 

O que você quer saber de verdade? (2011, EMI)

 

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto e Tulipa Ruiz
Ouça: Depois e Descalço no Parque

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

0 thoughts on “Disco: “O que você quer saber de verdade?”, Marisa Monte

  1. ATE QUE ENFIM… Apesar de quase “nunca” concordar com as notas dadas pelo grande Cleber Facchi, sempre leio suas criticas que são bem escritas, além de dar muito prazer.
    Hoje tive a grata surpresa de ver um 8,0 para “O que você quer saber de verdade?”, essa é exatamente a nota que eu tinha pensado para essa maravilha de MARISA MONTE. Acho que estou aprendendo, VALEU MIOJO INDIE

  2. Antes de iniciar minha discórdia, deixo claro que sou fã de Marisa Monte. Acho ela uma das melhores cantoras do Brasil. Mas ela tem um álbum chato nas mãos.

    Seus argumentos como: “a cantora se assenta em uma maré de calmarias, esvoaçando composições permeadas pela delicadeza e a atmosfera suave de suas canções”, “o apego à identidade nacional da compositora, que mais uma vez garante uma coleção de admiráveis composições” ou “atendendo às demandas de seu público e fornecendo exatamente o que ele quer saber de verdade”, sempre esteve, de uma forma ou de outra, justificando as críticas do seus trabalhos antigos.

    A delicadeza das canções suaves, o apego à identidade nacional e atender as demandas do público sempre fizeram parte dos trabalhos de Marisa Monte. Não estou criticando suas intenções. Estou criticando o seu álbum.

    Não dá pra aceitar melodias repetitivas, infantis e intermináveis como a contida em “Ainda Bem” acompanhada de uma justificativa que é simples, é popular, é insertiva.
    Não dá pra aceitar rimas pobres e sem sabor como a contida em “Hoje eu não saio, não” acompanhado de uma justificativa que é simples, é popular, é insertivo.

    Me desculpe. Marisa Monte errou a mão neste álbum. Eu não sei se foi fase. Eu não sei se é o que ela busca. Mas essa não é a Marisa Monte que eu conheço.

    Faço das palavras de Sérgio Martins as minhas: “Marisa é um genérico de si mesma”, parece uma cantora que quer cantar Marisa Monte.

  3. Teu texto está ótimo. Sem dúvidas um bom texto para um bom disco. Adorei a crítica, concordo com ela e com o comentário acima de que Marisa Monte é a melhor voz feminina da música brasiliera. Parabéns!

  4. o álbum é bonito, mas não é tão bom assim. Melodias bonitas, letras românticas e uma linda voz, esse sempre foi a formula dela e ela continua mandando bem, mas falta renovação.

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