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Disco: “O Terno”, O Terno

O Terno
Rock/Garage Rock/Psychedelic
http://www.oterno.com.br/

Um salto. Da sonoridade nostálgica lançada em 66 (2012), registro de estreia da paulistana O Terno, pouco parece ter sobrevivido. Mesmo que a relação do trio formado por Tim Bernardes (Guitarra/Voz), Guilherme d’Almeida (Baixo) e Victor Chaves (Bateria) com o rock dos anos 1960/1970 seja a mesma do primeiro disco, basta observar a formação dos novos versos e arranjos para perceber a completa alteração na proposta da banda. O “passado”, antes interpretado como fonte temática, agora se converte em estímulo, mantendo fixo o diálogo com o presente de forma a ampliar o território musical incorporado em cada composição.

Livre do aspecto “caricatural” de faixas como Eu Não Preciso de Ninguém e 66, o presente álbum é uma obra que se movimenta de maneira curiosa – orquestrada por instantes vívidos de exploração conceitual. Quem esperava por um trabalho linear, mergulhada no ambiente cru do single Tic-Tac / Harmonium (2013), ou talvez partidário do mesmo som homogêneo lançado no debut, logo vai perceber na abertura do registro a singularidade que “organiza” cada ato instável assinado pelo trio.

Em um sentido de descoberta – ou talvez construção – da própria identidade, Bernardes e os parceiros de banda escapam com sutileza da ironia explorada no álbum de estreia, projetando confissão de forma a transformar cada música em um objeto de natural interação com o ouvinte. Não por acaso as melodias dissolvidas em toda a obra parecem agora enquadradas de forma acessível, sustentando desde faixas tomadas pelo romantismo melancólico do versos, como Eu Vou Ter Saudades, até canções consumidas pelo delírio das vocalizações, caso de Desaparecido ou Medo do Medo – esta última, recheada pelos vocais de Tom Zé.

Ainda que encarada como uma obra organizada por canções dinâmicas, sempre “comerciais”, bastam os ruídos de O Cinza para perceber os instantes de caos que preenchem e apontam a direção para o trabalho. São distúrbios poéticos que passam pelas ruas de São Paulo, atravessam as linhas tortas das guitarras e estacionam na mente agora bagunçada do ouvinte. Uma passagem natural para o ambiente turbulento que explode a cada curva do registro. Sem esbarrar na timidez inicial, os integrantes d’O Terno parecem ter encontrado uma obra tão íntima do espectador tradicional, quanto provocante, capaz de perverter o refúgio musical que há décadas protege (e limita) a estrutura do rock ‘n’ roll (clássico) em solo brasileiro.

Mais do que um regresso à estética dos anos 1960, com o presente álbum o trio assume a natural relação com a safra de artistas que conquistaram destaque pós-2010. Mesmo entre referências inevitáveis ao trabalho de Caetano Veloso no clássico Transa (Quando Estamos Todos Dormindo), ou mesmo outras passagens pelo som nacional lançado há quatro décadas, visíveis são os tropeços pela obra de Tame Impala (O Cinza), Foxygen (Quando eu me aposentar) e Unknown Mortal Orchestra (Eu Confesso) – referências adaptadas ao ambiente autoral do disco. O mesmo diálogo com o presente por vezes aproxima o trio paulistano do grupo Boogarins, em As Plantas Que Curam (2013). A diferença está no território a ser explorado. Enquanto álbum de estreia do coletivo goiano se acomoda em um cenário bucólico, quase místico em razão dos temas, bastam os versos descritivos, arranjos sujos e o ritmo torto de O Cinza ou Ai, Ai, Como Me Iludo para sentir o aspecto urbano que ocupa a obra.

Corajoso e amplo em relação ao trabalho anterior – uma obra dividida entre a banda e o músico Mauricio Pereira (Os Mulheres Negras), pai de Bernardes -, com o novo álbum O Terno assume um verdadeiro exercício de possibilidades. Há espaço para o experimento (Medo do Medo), tímidas canções de amor (Eu Vou Ter Saudade), e até ironia (Brazil), como se cada música fosse a representação de um novo exercício instrumental.

Longe de ser traduzido uma obra fechada, restrita ao tempo de duração de suas faixas, o disco lentamente rompe com a estrutura de um “álbum tradicional”. Trata-se de uma obra capaz de reinterpretar o conceito de videoclipe e autopromoção – vide o mockumentário Classic Albums -,  vai de encontro ao público para ser custeada – pelo Catarse – e ainda se abastece com todo um catálogo de referências empoeiradas, originalmente expostas há quatro ou cinco décadas. Uma confusão entre passado e presente que resume não apenas a versatilidade d’O Terno em brincar com essa atmosfera retrô, mas em interpretar de forma harmônica toda a colisão de ideias e experiências que tanto movimentam o (novo) rock nacional.

O Terno (2014, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Boogarins, Nevilton e Garotas Suecas
Ouça: O Cinza, Eu Vou Ter Saudades e Ai, Ai, Como eu Me Iludo


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