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Disco: “O Voo do Dragão”, Guizado

Guizado
Jazz/Experimental/Electronic
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Da estreia com Punx (2008) ao cruzamento de referências que marca Calavera (2010), Guilherme Mendonça nunca demonstrou interesse em produzir um som fácil ou “acessível” com o Guizado. Ritmos nacionais desconstruídos, interferências eletrônicas, vozes e versos robóticos, além do trompete fluido, sempre explorado com liberdade, sem rumo ou direção definida. Um curioso jogo de referências instáveis, estímulo para o uso de temas ainda mais provocativos no terceiro álbum de estúdio do trompetista, O Voo do Dragão (2015, Independente).

Nascido do “cruzamento” entre os dois últimos registros de Mendonça, o trabalho gravado por M. Takara e Fernando Sanches no estúdio El Rocha entrega oito faixas de puro delírio e constante transformação. Da abertura com Sete Lâminas ao fechamento em Luzes, um intenso revezamento do time formado por Guizado (trompete e programações), Caetano Malta (sintetizadores), Thiago Duar (baixo), Alle Alencar (guitarra) e Thiago Babalú (bateria). Artistas capazes de prender a atenção e estimular o ouvinte – sempre hipnotizado pelas estranhas formas musicais que abastecem a obra.

Como explícito no título do trabalho – O Voo do Dragão, nome inspirado no filme de 1972 estrelado por Bruce Lee -, parte expressiva do presente álbum está ancorada em elementos da cultura oriental. Entretanto, assim como Criolo no recente Convoque Seu Buda (2014), não se trata de uma obra conceitual, temática, mas uma sutil interpretação desse universo. Samples e colagens encaixados de forma complementar, como fragmentos utilizados para preencher as lacunas da obra.

Mesmo encarado de forma não linear, esquivo de qualquer traço de previsibilidade, não é difícil perceber dois agrupamentos distintos de canções. Como uma obra dividida em duas metades, O Voo do Dragão sustenta no ato inicial sua porção mais complexa e versátil. Músicas como Sete Lâminas e a própria faixa-título, faixas quebradas em diferentes atos e ambientações rítmicas, como se várias composições fossem amarradas dentro de um mesmo bloco de experiências. A julgar pelo uso de samples e sobreposições Lo-Fi em O Cachorro na Estrada, é possível perceber um diálogo (não intencional) com os mesmos temas orientais de Gold Panda em Lucky Shiner (2010) ou mesmo com o trabalho de Steve Ellison no “jazzístico” You’re Dead! (2014), último disco do Flying Lotus.

Ao pisar em Tigre, um parcial distanciamento desse mesmo cenário. Utilizando de temas e arranjos sutis, Mendonça não apenas garante maior espaço ao time de colaboradores, como ainda passeia com tranquilidade pelo interior das faixas, reforçando na limpidez do trompete a confessa relação com a obra de Miles Davis. De um lado, a essência esquizofrênica do clássico On The Corner (1972), registro já interpretado ao vivo pelo trompetista e obra sustentada de forma evidente nas constantes rupturas de Toró. No outro oposto, um pouco da sobriedade (e melancolia) de obras como Nefertiti (1968), registro que sobrevive na leveza de canções como Luzes e a já mencionada Tigre.

Em essência marcado pelo reforço nas batidas e samples alimentados por um MPC 2000XL, O Voo do Dragão aos poucos finaliza uma série de elementos apresentados no disco de 2010. São interferências eletrônicas e ruídos lançados por diferentes sintetizadores, caso do curioso JolyMods – aparelho inventado pelo produtor musical e parceiro Arthur Joly. Um atento jogo de colagens sobrepostas, fragmentos que aos poucos convertem em música a mesma imagem colorida criada pelo ilustrador Atsuo Nakagawa para a capa do disco.

O Voo do Dragão (2015, Independente)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: M.Takara, Bixiga 70 e Hurtmold
Ouça: O Cachorro na Estrada, Tigre e Toró


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