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Disco: “Once I Was an Eagle”, Laura Marling

Laura Marling
Folk/Singer-Songwriter/Indie
http://www.lauramarling.com/

Laura Marling

A grandiosidade da obra de Laura Marling sempre esteve impressa na sutileza dos instrumentos e vozes diminutas despejados pela artista. Tendo no primeiro registro da carreira, Alas, I Cannot Swim (2008), um exercício de descoberta e busca instrumental, a cantora e compositora britânica fez dos dois trabalhos seguintes uma manifestação assertiva desse propósito. Dessa forma, enquanto I Speak Because I Can (2010) lidava de forma confortável com a manifestação das dores e sentimentos da artistas, a partir de A Creature I Don’t Know (2011) a artista firmou de maneira decidida as próprias bases, fazendo do recente Once I Was an Eagle (2013, Virgin) uma continuação natural do mesmo propósito.

Ponto de maturidade dentro da discografia da artista, o novo álbum transporta – talvez de forma intencional -, a sonoridade de Marling para idos dos anos 1970. Entre passeios pelo Folk Rock típico da época e instantes que se aproximam de forma natural da obra de Joni Mitchell, a cantora faz dos mais de 60 minutos do álbum (registro mais extenso até aqui) uma morada para a dor e a libertação. Cada vez menos próxima dos gracejos firmados em começo de carreira, quando ainda esboçava um profunda relação com Noah and The Whale, a cantora utiliza do registro como um segmento acinzentado dos registros anteriores, mantendo na sobriedade um instrumento natural de ordem.

Saem as paisagens bucólicas e os lamentos suavizados que ganharam forma até o último disco para que entrem as emanações urbanas, delimitando toda a presente fase da cantora. Como Master Hunter já havia anunciado meses antes, a “nova Laura Marling” parece movida pela crueza dos sons, elemento que talvez afaste os antigos seguidores da artista ou a apresente a outros. Ainda que a natural aproximação entre as faixas trate da obra como um registro de alinhamento solucionado, cada música parte de um esforço lírico e instrumental próprio, o que transforma Once I Was an Eagle em uma espécie de coletânea, e não um registro temático como os dois anteriores álbuns.

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Extenso – são 16 composições inéditas -, o trabalho faz justamente dessa colagem de faixas aleatórias uma medida natural de erro e acerto. Ao mesmo tempo em que Marling parece livre para criar, brincando com pequenas orquestrações em Little Bird, instantes dolorosos em I Was an Eagle, além dos versos essencialmente amargos em Devil’s Resting Place, a imensa quantidade de faixas arrasta o trabalho de forma penosa por diversos momentos. Não são poucos os instantes da obra em que o ouvinte parece perdido, como se a linha guia dos vocais e acordes de violão exercessem um encanto satisfatório e ao mesmo tempo exaustivo sobre a obra.

O mais curioso na construção do registro talvez seja sua irretocabilidade. Da mesma forma em que os lamentos espalhados pelo trabalho ecoam em excesso, tudo parece posicionado dentro de uma medida de acerto inevitável. É como se logo na abertura do disco, com Take the Night Off, Marling delimitasse uma atmosfera sombria que só parece coerentemente rompida com a faixa de encerramento do álbum, a pacata Saved These Words. Dentro desse cenário específico é possível dançar pela sutileza de Where Can I Go? e ao mesmo tempo mergulhar na seriedade madura de Breathe, canções que parecem partilhar de uma proposta distinta, porém coesa dentro daquilo que a cantora firma pela obra.

Escolha mais do que acertada para a produção do álbum, Ethan Johns entrega ao registro o mesmo ensaio testado uma década antes por Ryan Adams com Heartbreaker (2000) e Gold (2001). De fato, muito do que circula pelo universo do norte-americano se repete na presente obra de Marling, com pequenas alterações, claro. Ao passo que o músico se posicionava como vítima em seus versos, a britânica firma pelo disco uma nova posição, assumindo os lamentos sem abandonar a carapuça de algoz. É justamente dentro dessa dicotomia que Laura sustenta todo o invento poético do álbum, isolando na simplicidade amarga dos versos a figura de um ser que sofre, mas sabe muito bem como fazer sofrer.

Laura Marling

Once I Was an Eagle (2013, Virgin)

Nota: 7.9
Para quem gosta de: Joni Mitchell, The Tallest Man on Earth e Ryan Adams
Ouça: Where Can I Go? e Once

 


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