Disco: “Paradise EP”, Lana Del Rey

Categories Resenhas

Lana Del Rey
Pop/Alternative/Female Vocalists
http://www.lanadelrey.com/

Por: Cleber Facchi

Lana Del Ray é uma vitrine.  Bela, forjada e conceitualmente personalizada como a nova musa da música pop (ou talvez da cena “alternativa”), a nova-iorquina carrega em cada batida, verso e melodia uma aproximação com um ponto específico da indústria musical. Ora íntima do R&B, ora próxima da eletrônica; capaz de conversar com a música pop, ao mesmo tempo em que surge rodeada por referências culturais escolhidas a dedo – de Elvis à maconha -, Del Rey é uma boneca viva, sendo facilmente maquiada e montada de acordo com as exigências contratuais ou sonoras de seus produtores.

Dentro dessa estrutura de encaixes não particulares, quando entregue aos excessos Del Rey ecoa irregular, resultado perceptível no acabamento artificial que banha a quase completa execução de Born To Die, “primeiro” registro oficial da artista e um sem número de colagens sonoras que praticamente a tornam irreconhecível. Entretanto, quando em “boas mãos” e sem a necessidade de fornecer composições além do próprio limite, a norte-americana não somente demonstra sua funcionalidade, como ecoa uma perceptível dose de talento e acerto, entendimento que decide os rumos do bem elaborado Paradise EP (2012, Interscope/Polydor), mais novo e curiosamente melhor registro já apresentado pela cantora.

Livre dos excessos que delimitam a extensão de Born To Die – trabalho que dependendo da edição alcança arrastadas 17 faixas –, o pequeno disco mantém (em oito músicas) a artista dentro da zona de conforto a que estava habituada, agradando mesmo quem possa ter se irritado com o último álbum. Melódica, coberta por almofadas densas de sintetizadores, arranjos de cordas e vozes autotunadas que estão longe de um resultado robótico, Del Rey caminha pelo trabalho sem pressa. Longe da pressão estabelecida mesmo antes do primeiro disco, a cantora encontra o que talvez fosse esperado há alguns meses, durante a entrega do comentado debut, com Lana mergulhando na mesma massa sonora que tanto despertou o interesse do público e da crítica nos primeiros lançamentos.

Em Paradise temos um claro retorno da cantora, que abandona de forma consciente as batidas épicas e o acabamento grandioso imposto de forma artificial em Born To Die para reviver o mesmo clima doce que lhe trouxe destaque em músicas como Blue Jeans e Video Game. Menos Marina Diamandis/Florence Welch e mais Beyoncé (em entalhes etéreos), Del Rey e a trinca de produtores que a acompanham saem em busca de uma sonoridade capaz de exaltar aquilo que a artista tem de melhor na imensa vitrine que ela representa: A beleza. Cada faixa parece intencionalmente preparada de forma a valorizar a presença voluptuosa da cantora, preferência que deve converter as apresentações ao vivo em um jogo de olhares, suspiros e sensações aproveitadas de maneira coesa ao longo de todo o EP.

Melhor exemplo dessa valorização do caráter erótico/sedutor do trabalho está em Cola (Pussy), terceira canção do disco e uma das mais envolventes composições já lançadas por Del Rey. Sem se preocupar com analogias ou possíveis metáforas que ocultem de forma controlada os versos da faixa, a cantora e o produtor Rick Nowels (que ainda escreve e produz outras duas músicas do disco) mergulham fundo nas confissões, trazendo versos diretos como “minha vagina tem sabor de Pepsi Cola” e “Tenho preferência por homens mais velhos”. A proposta não apenas amplia os limites do trabalho da artista, como posiciona Lana em um estado natural, como se desde o princípio fosse preparada para isso.

Recheado por uma instrumentação de fato consistente – um misto de Beach House do álbum Teen Dream com o jj do disco nº 2 -, Del Rey mostra que mesmo “moldada” consegue (pela primeira vez) provar à que veio. Capaz de seduzir na mesma medida em que nos arrasta para um mundo de sonhos e encaixes mágicos (bem explorados na encantadora Bel Air), a artista firma no meio dos exageros de Born To Die um cenário paradisíaco e mágico, logo, não haveria de existir um título mais coeso ao pequeno trabalho do que Paradise.

Paradise EP (2012, Interscope/Polydor)

Nota: 7.7
Para quem gosta de: Ellie Goulding, Sky Ferreira e Beyoncé
Ouça: Cola, American e Bel Air

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

10 thoughts on “Disco: “Paradise EP”, Lana Del Rey

  1. Se Lana Del Rey nasceu para morrer no seu primeiro disco, com esse EP a alma dela acabou parando no Paraíso!

  2. Ela melhorou, “Born To Die” abusou de uma produção exagerada e trabalhou clichés desnecessários com canções que tentaram soar cabeças, mas, por dentro, eram tão profundas quanto Taylor Swift. Se antes, ela parecia uma Rihanna travestida de Beth Orton, agora, ela soa como algo, um pouco, mais pessoal. Ainda assim, “Gods & Mothers” tem uma composição, no minimo, duvidosa, e “Bel Air” reafirma a fama dela de sonifero musical. Por outro lado, “Coca” e “Eletric Body” são as canções mais divertida que ela já escreveu, e “Yayo” é bonita. Menos irregular, Lana parece não querer mais impressionar e, por tanto, acaba entregando um material quase – só quase – natural. Realmente, ela é uma boneca. Resta decidir, se essa boneca que sabe como cantar (ou não) – porque voz ela tem, o problema é produção, ritmo e letra.

  3. As vezes eu penso que ela se remete ao passado para gravar suas musicas. Porém não é atoa que ela conquistou com o seu Indie Pop os Hipsters que amam ser diferentes da mainstream. O vocal dela é ótimo, se comparado com outras cantoras pop atual. Digamos que suas musicas são consideravelmente boas por fugir do clichê do eletropop atual. Mas ainda acho que se ela tivesse essa pegada mais disco ou dance e menos valsa da mamãe, ficaria melhor. Evoluiu sim, mas sem perder seu jeito sonolento de ser.

  4. Os arranjos chegam a ser soberbos de tão elaborados, Ride também entraria em uma categoria mais “Natural” ela se deixa levar pela música não parece ser sido escrita somente para constar no álbum, sendo que os tons de voz me agradam bastante, ressaltando que a regravação de Blue Velvet está lindissíma. Lana pode até ser moldada de certa forma, mas tem personalidade própria, atitude e com precisão cirurgica está se consolidando.

  5. Quando vi a foto do álbum “Born To Die”, pensei: “Eu não vou nem atrás de saber se as canções dela são boas, só pela cara, parece que não…”

    Outro dia no ônibus, ouço uma música… Era “Summertime Sadness”… Me apaixonei! Decorei uma frase só pra chegar em casa e jogar no Google… E pra minha surpresa, era dela 🙂 Lana Del Rey…

    Baixei o álbum que, como falei anteriormente, parecia não prestar, e hoje, não consigo parar de ouvir… Todas as músicas são excelentes.

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