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Disco: “Paralelos & Infinitos”, César Lacerda

César Lacerda
Nacional/Indie/Folk
http://cesarlacerda.com/

Já acabou?

Esse talvez seja o primeiro pensamento que invade a mente de qualquer ouvinte ao final de Paralelos & Infinitos (2015, Joia Moderna). Segundo registro em estúdio do cantor e compositor César Lacerda, o álbum de apenas oito faixas e quase 30 minutos de duração se encerra com a mesma leveza em que o doce acervo de músicas pouco a pouco revela o disco. Vozes, arranjos e versos que não apenas cercam, como ainda confortam o ouvinte com extrema delicadeza, como se um mundo inteiro fosse criado e desfeito da abertura ao fechamento do trabalho.

Inaugurado de forma festiva com Algo a Dois, composição que parece absorver a essência de artistas como Fleet Foxes e Fleetwood Mac, Lacerda mostra que parte dos conceitos aplicados ao longo do disco estão ancorados na cena estrangeira. Uma pitada de Folk dos anos 1970 – Nick Drake e Joni Mitchell -, um passeio pelo isolamento de Elliott Smith, além de um diálogo estreito com diferentes nomes da atual cena independente. Fragmentos que se completam com fascínio de Lacerda pela obra de brasileiros como Caetano Veloso e Lenine, este último, parceiro no debut Porquê da Voz, de 2013.

Confesso interessado na obra de Milton Nascimento, Lacerda, que há poucos meses interpretou a faixa Pedras Rolando na coletânea Mar Azul – Sons de Minas Gerais Vol. 1 (2015), transporta para dentro do presente disco um pouco dessa sonoridade bucólica, típica da obra de Bituca. Difícil não lembrar dos trabalhos do Clube da Esquina quando faixas aos moldes de Olhos e Touro Indomável crescem de forma lenta e melancólica no interior do álbum. Um misto de homenagem e referência, mas que me nada interfere no caráter autoral do jovem músico.

Salve a colorida composição de abertura e os instantes finais de Love Is, sétima faixa do álbum, Paralelos & infinitos sobrevive como uma obra contida, quase tímida. Respiros, sussurros e lamentos regidos pelo manuseio preciso de um violão, componente central de todo o trabalho. Curioso perceber nesse propositado “minimalismo” o nascimento de um registro amplo, repleto de segredos, tormentos e passagens que refletem os sentimentos mais profundos de Lacerda, personagem central e uma espécie de guia até a última nota do álbum.

Feito para ser ouvido sem pressa, Paralelos & infinitos parece seguir a direção apontada pelo cantor em Guarajuba. Quinta faixa do disco, a música dividida entre Lacerda e a namorada, Victoria Vasconcelos – a garota que estampa a capa do disco -, lentamente parece desenhar um cenário paradisíaco e recluso, tomado pelo verde e o som dos animais, marca de todo o curto catálogo de composições.

Assim como no trabalho anterior, a real beleza do presente disco está no encaixe simples e confessional de cada verso. De um lado, faixas como a apaixonada Touro Indomável, um retrato do romantismo honesto de Lacerda – “Naveguei os mares da paixão / Embebedado de tanto amor / Vim pra te buscar”. No outro, o tempero sorumbático de músicas como Olhos – “De olhos bem fechados / Caminho pela cidade / E corro lado a lado com o perigo /qual cidade rouba o seu amor?” -, reflexo da alma ferida do cantor. Metades que assumem direções opostas, mas que acabam movimentando as engrenagens sentimentais do trabalho.

Paralelos & infinitos (2015, Joia Moderna)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Cícero, Fernando Temporão e Lucas Vasconcellos
Ouça: Guarajuba, Olhos e Touro Indomável


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