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Disco: “Pelicano”, Constantina

Constantina
Post-Rock/Instrumental/Experimental
http://www.constantina.art.br/

Por: Cleber Facchi

Constantina

Depois do oceano imenso desbravado no interior de Haveno, de 2011, a banda mineira Constantina opta pela economia na formação do brando Pelicano (2014, Independente). Mais recente invento do grupo de Belo Horizonte desde a chegada do abrangente registro, o presente álbum encontra na serenidade automática um ponto de sustento para grande parte das composições. São quatro atos extensos – Pelicano, Escafandro, Puerto Vallarta e Salva Vidas -, faixas orquestradas com a mesma firmeza (e leveza proposital) que anunciou o grupo há quase uma década.

Tendo no mar e no infinito particular desse cenário um combustível natural para a formação do disco, cada música segue em busca de uma solução aquática, mutável e sempre aventureira aos ouvidos do público. São mais de 40 minutos em que guitarras atmosféricas, sintetizadores e encaixes precisos de bateria se acomodam em uma transformação homogênea. Canções costuradas, como se cada acréscimo proposto pelo grupo – Alex Fernandino (guitarra), André Veloso (baixo), Bruno Nunes (guitarra), Daniel Nunes (bateria) e GA Barulhista (percussão e eletrônicos) – fosse calculado de forma sempre precisa.

Enquanto Haveno era orquestra do princípio ao fim pelo impulso, como uma representação natural da irregularidade que movimenta as ondas do mar, Pelicano soa como o fim de uma jornada. Uma sensação de que os meses à deriva foram presenteados por um ambiente de conforto e profundo acolhimento. Não por acaso todas as quatro faixas carregam títulos que compactuam com esse cenário, fornecendo abrigo (Puerto Vallarta), proteção (Salva Vidas) e uma constante percepção de que é possível alcançar a terra firme (Pelicano).

Parte da imposição doce que abriga as faixas do disco surge como um efeito natural ao número reduzido de integrantes na banda. Enquanto Haveno, ou mesmo os demais registros da banda vinham do fluxo versátil dos sete integrantes, em Pelicano os cinco membros assumem no minimalismo uma proposta. São arranjos econômicos, travessias naturais pelo pós-rock dos anos 1990 (principalmente Tortoise e Mogwai), além de uma série de atributos acústicos que parecem típicos dos singles da banda. Como chegar em casa depois de uma longa viagem, o presente disco borbulha tranquilidade.

Ainda que o esforço pacato das canções se concentre na suavidade, Pelicano está longe de parecer um registro compacto ou monótono. Enquanto o miolo do trabalho absorve as métricas pontuais das guitarras, dialogando com o Math Rock em uma linguagem particular, tanto a faixa de abertura quanto a canção de encerramento enveredam para um som “aventureiro”. Crescentes, Salva Vidas e a faixa-título transportam o ouvinte para um cenário de detalhes. Um pequeno catálogo de ruídos, distorções e colagens de sons ambientais capazes de fazer a mente do ouvinte passear. Há serenidade, mas em Pelicano ela é tratada como um mecanismo versátil.

Distante dos experimentos eletrônicos que lavaram o disco passado, com o novo registro a busca pela homogeneidade dos arranjos orquestra a atuação da banda. Similares, mas nunca iguais, as canções ecoam íntima aproximação, transformando cada um dos atos específicos do disco em uma doce etapa para o ambiente em expansão que cresce até o último acorde. Pelicano é uma obra inclinada a acomodar o ouvinte, mas consegue provocar na mesma medida.

 

Pelicano

Pelicano (2014, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: ruído/mm, Kalouv e Labirinto
Ouça: Pelicano e Salva Vidas