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Disco: “Piñata”, Freddie Gibbs and Madlib

Freddie Gibbs and Madlib
Hip-Hop/Rap/Alternative
http://www.rappcats.com/

Por: Cleber Facchi

Freddie Gibbs and Madlib

Quando Otis Jackson Jr. deu vida aos primeiros inventos sob a alcunha de Madlib, em 1993, o jovem Freddie Gibbs era apenas um garoto de 11 anos que havia recém-descoberto o Hip-Hop. A diferença de idades e “regiões de atuação” quase opostas – Madlib é californiano, enquanto Gibbs é original de Gary, Indiana – não impediu que a dupla se encontrasse musicalmente no EP Thuggin’, de 2011. Registro que serve como abertura para a sequência de obras entregues pela dupla e a base para o bem resolvido encontro em Piñata (2014, Madlib Invazion), mais novo (e bem sucedido) projeto assinado em parceria.

Propositalmente nostálgico, o registro de 60 minutos de duração amarra o que cada uma das metades vem promovendo com acerto ao longo dos últimos anos. Enquanto as batidas, samples e interferências musicais reforçam todo o dinamismo de Madlib – capaz de ir do Jazz ao G-Funk em pouquíssimos segundos -, as rimas atentas entregam a firmeza de Gibbs, habilitado a brincar com temas como drogas, sexo e certa dose de melancolia sem escapar da fluidez letárgica que esculpe os arranjos.

Por vezes encarado como uma coletânea das recentes invenções lançada pela dupla – músicas como Thuggin’, Shame e Deeper já são velhas conhecidas do público -, Piñata mantém na homogeneidade um caráter explícito de ineditismo. Passeando por referências como a Bossa Nova, Jazz e todo um acervo de melodias da década de 1970, Madlib aproxima todas as canções do registro em um cenário único, fórmula que em diversos momentos esbarra no mesmo contorno criativo de Madvillainy (2004) – obra-prima do produtor concebida ao lado de MF DOOM.

Em busca de um flow melódico, capaz de dialogar com o público médio, Gibbs encara o mesmo tratamento dinâmico enquadrado em Baby Face Killa, álbum solo lançado em 2012. Trata-se de um catálogo de rimas particulares, mas não menos distantes do ouvinte, leveza que percorre a inaugural Scarface, abraça o passado em Deeper e segue com maturidade até o ato final do trabalho. Contornando o descompromisso envolvente do produtor, o rapper fixa nas rimas um toque de sobriedade, trazendo ao disco uma tintura sombria e, consequentemente, marcada pelo contraste.

Mais do que um campo inteligente de possibilidades para o duo, Piñata abre passagem para que diferentes nomes do Hip-Hop (antigo e recente) circulem com liberdade no decorrer da obra. Enquanto Bomb usa da presença de Raekwon (Wu-Tang Clan) como um diálogo particular com a década de 1990, todo um conjunto de nomes recentes do rap estadunidense imprimem presença no decorrer da obra. Artistas como Danny Brown (High), Earl Sweatshirt (Robes) e Ab-Soul (Lakers), que aproveitam do curto espaço de cada faixa para consolidar as próprias preferências.

Leve, Piñata estabelece na completa ausência de exagero uma assertividade própria. Ao absorver o que há de melhor no trabalho de cada integrante, além, claro, dos colaboradores que ocupam diferentes espaços no decorrer da obra, o álbum estreita os laços entre o Rap da década de 1990 e o cenário melódico explorado a partir dos anos 2000. Um curioso encontro entre o passado e o presente capaz de estabilizar rimas e bases sem necessariamente perder o toque inventivo que fornece sustento ao registro.

 

Piñata

Piñata (2014, Madlib Invazion)

Nota: 8.1
Para quem gosta de: SchoolBoy Q, Danny Brown e Quasimoto
Ouça: Deeper, High e Robes