Disco: “Quantum Leap”, Dumbo Gets Mad

Categories Resenhas

Dumbo Gets Mad
Psychedelic/Indie/Lo-Fi
http://www.dumbogetsmad.com/

Por: Gabriel Picanço

Dumbo Gets Mad

Lucas Dumbini e Carlotta Menozzi, o belo casal italiano com os mamilos a mostra na capa de Quantum Leap, aparentam serem bonitos, felizes e iluminados – mas são rodeados por algo exótico. Já o filme clássico filme da Disney, Dumbo (1941), inocente para muitos, consegue ser chapado e estranho ao ponto de perturbador. O nome da banda de Lucas e Carly talvez tenha sido inspirado pela cena em que o elefantinho bebe algo “curioso” e começa a experimentar alucinações terríveis. Um dos momentos do cinema mais cultuados pelos doidões, e dos mais assustadores paras criancinhas. Por sorte, a música de Dumbo Gets Mad é, no geral, inofensiva, sem bad trips. Pelo contrário, a principal característica do projeto de música psicodélica/experimental dos italianos é a (falta de) atitude hippie e descolada, descomprometida e positiva.

Quantum Leap (2013, Bad Panda), o segundo disco da banda, aprofunda um pouco das experimentações apresentada na estreia, Elephants At The Door, de 2011, sempre fundindo elementos atuais com texturas do passado. Órgãos vintage, letras e vocais bobinhos, riffs psicodélicos, ruídos e efeitos diversos são os principais responsáveis por dar o sabor característico ao som da banda, coroado com um esquema de gravação e mixagem analógico que ajuda e muito no tempero. Ainda que altamente experimentais, as escolhas de produção e gravação são em boa dose e não chegam a atrapalhar a experiência de ouvir o álbum nem assustam aos ouvintes menos abertos a experimentações muito radicais.

O disco traz como base uma boa fórmula de pop-rock psicodélico similar a  vem sendo explorada por bandas como Foxygen e Unknown Mortal Orchestra, mas Dumbo Gets Mad também se aventura em gêneros aparentemente distantes. E possível identificar elementos de synthpop, surf rock, disco, soul, funk, hip hop e ate mesmo uns batuques de samba durante Quantum Leap. Mas o equilíbrio prevalece e as faixas soam como vindas diretamente da década de 60 ou 70. Bongôs, flautas, órgãos, e outros detalhes são elementos essenciais para uma espécie de filtro que acentua a o caráter vintage.


Apresentando grande diversidade de direções musicais, as principais qualidades de Quantum Leap estão nas melodias pegajosas e no bom refrão. São músicas que acabam agradando justamente pela despretensão. Indian Food, a mais pop e grudenta do álbum, é pura feel good music, com uma ótima combinação entre os vocais de Lucas e Carly culminando num refrão positivo e viciante. Já Future Sun e Cougars são exemplos de faixas onde a exploração do groove funk fica mais visível, mas também estão devidamente cobertas por uma camada psicodélica. A segunda, Cougars, o momento mais funkeado e cheio de swing do disco, combina os vocais engraçados de Carlotta com um baixo slap exagarado que parece ter sido recortado da trilha sonora de um filme de Exploitation da década de 1970.

Exatamente na metade do disco, o grupo usa as referências do passado para algo completamente inesperado: um insólito cover de duas músicas (ao mesmo tempo) de ninguém menos que Azealia Banks. Fusão de 212 e Liquorice, Tahiti Hungry Jungle conta com um baixo com muito peso e distorção, e ainda, um toque oriental nas guitarras e sintetizadores, resultando algo que lembra as faixas mais pesadas de M.I.A.  Mesmo essa inserção inesperada não causa muito estranhamento e o resultado é bastante interessante e ate mesmo original. E, já que o disco é uma descomprometida e despretensiosa mistura, Bam Bam vem logo em seguida como uma ótima referencia a ítalo disco, uma dos principais produtos musicais da pátria de Dumbo Gets Mad.

Quantum Leap é a cima de tudo um registro agradável – graças principalmente a predominância de um tom positivo e alegre durante todo o álbum. Porem, fica a impressão que a banda ainda pode ir muito além disso. Talvez falte certa ambição para produzir algo mais forte, que consiga surpreender, sendo único e memorável. Sem deixar, é claro, de traduzir todas as referências que são importantes, e que continue a celebrar a liberdade musical, algo que foi fundamental para o projeto até aqui.

 

Dumbo Gets Mad

Quantum Leap (2013, Bad Panda)


Nota: 7.5
Para quem gosta de: Unknown Mortal Orchestra, Foxygen e Ariel Pink’s Haunted Graffiti
Ouça: Indian Food, Tahiti Hungry Jungle e Bam Bam

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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