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Disco: “R Plus Seven”, Oneohtrix Point Never

Oneohtrix Point Never
Experimental/Ambient/Electronic
http://www.pointnever.com/

Por: Cleber Facchi

Daniel Lopatin

Nenhum produtor/músico atual parece capaz de orquestrar uma obra tão excêntrica quanto Daniel Lopatin. Fascinado pelos sintetizadores que marcaram o Krautrock e a Ambient Music na década de 1970, além, claro de todas as transformações atmosféricas que conduziram o estilo até os anos 1980, o norte-americano fez de cada novo registro em estúdio a entrada para um universo de rupturas constantes. Um princípio para aquilo que o Synthpop do Ford & Lopatin, o (estranho) trabalho ao lado de Tim Hecker ou mesmo as incontáveis interferências pela cena recente exprimem em uma obra tão mutável, que o simples ato de caracterizar o trabalho do artista em um gênero específico parece impossível de ser alcançado.

Mutável, Lopatin mais uma vez não se acomoda dentro da própria estética, alcançando em R Plus Seven (2013, Warp) um instante de completa desarticulação dos limites instrumentais a que estava submetido. Na contramão de qualquer resultado previsível, o artista está longe de regressar ao cenário obscuro e fragmentado imposto em Replica (2011), afinal, tão logo o novo disco tem início, o produtor abre espaço para um ambiente voltado ao etéreo com homogeneidade, efeito claro no manuseio pleno dos sintetizadores. Desenvolvido em cima de pequenos atos complementares, o álbum é, mais uma vez, um princípio de renovação, como se todos os caminhos de outrora fossem apagados para que um novo rumo fosse imediatamente apontado dentro da obra do estadunidense.

Se há pouco menos de dois anos, músicas como Sleep Dealer e Up espalhavam samples em cima de uma base ruidosa, próxima do Drone, agora o princípio temático de Lopatin se revela de forma completamente distinta. Artesanalmente o músico desenvolve cada arranjo, harmonia ou mesmo o aproveitamento tímido das parcas batidas, reforçando uma obra de beleza atmosférica, intimista em alguns aspectos. Essencialmente centrado no manuseio dos sintetizadores e todo o efeito atmosférico que eles fornecem – sejam expressos de forma suave (Americans), ou em instantes de pequena aceleração (Problem Areas) -, R Plus Seven é uma obra em que o norte-americano, longe de emular a si próprio, aparece por inteiro.

Posicionado de forma bastante específica em algum lugar entre o meio da década de 1970 e o começo dos anos 1980, Lopatin encontra em obras como Discreet Music (1975) e a série Ambient de Brian Eno, todo o princípio para o plano de fundo sombrio que movimenta o recente álbum. Entretanto, enquanto a inspiração britânica parece habitar uma redoma de vidro cercada por sons abrandados, como uma tímida trilha sonora para a um passeio lunar, Lopatin resolve ir além, transformando o novo álbum do Oneohtrix Point Never em um mergulho sombrio pelo espaço. Galáxias, estrelas e planetas, tudo passa com velocidade (e certo controle) pelas mãos e harmonias do compositor.

Curioso que ao dar vida aos momentos mais sublimes da obra, Lopatin vai além de esbarrar na mesma essência de Eno ou outras influências claras, como o alemão Klaus Shulze. Basta atravessar as trevas que nutrem Still Life para perceber como Fennesz passeia pela obra do norte-americano. Mesmo o reservado Aphex Twin aparece vez ou outra, exercício claro na estrutura levemente adocicada de Along e Boring Angel, músicas que bem poderiam ser encontradas entre as brechas da série Selected Ambient Works. Lopatin ainda tira tempo para brincar com elementos do próprio universo, manifestação visível no solo instável de Problem Areas ou mesmo Chrome Country, música que parece agregar toda a produção prévia do artista em um único agregado instrumental.

Capaz de reforçar o lado “místico” de seu criador, R Plus Seven, mais do que os registros anteriores, é uma obra que obriga o regresso do ouvinte diversas vezes. Amarrado em uma mesma estrutura musical, o registro se manifesta como uma obra em que Daniel Lopatin, pela primeira vez, parece interessado em construir um trabalho de abertura, crescimento e fechamento bem definidos – uma quebra ao cenário que se propaga desde Returnal (2010). De rumos alterados, ou não, o trabalho ao menos fixa uma certeza: a obra do Oneohtrix Point Never está cada vez mais longe de se acomodar em qualquer instante de conforto ou possível previsibilidade.

 

R Plus Seven

R Plus Seven (2013, Warp)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Brian Eno, Fennesz e Tim Hecker
Ouça: Problem Areas, Still Life e Zebra

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