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Disco: “RÁ!”, Rodrigo Ogi

Rodrigo Ogi
Nacional/Hip-Hop/Rap
https://www.facebook.com/RodrigoOgi

 

Imensa, a selva de pedra desbravada por Rodrigo Ogi há quatro anos parece longe de chegar ao fim. Com o lançamento de RÁ! (2015, Independente), segundo álbum em carreira solo do rapper paulistano – também integrante do coletivo Contra Fluxo -, morte, violência, sexo, abusos policiais e todos os excessos da vida noturna de São Paulo servem de estímulo para cada rima disparada pelo artista, prova de que o cenário periférico apresentado em 2011, com Crônicas da Cidade Cinza, lentamente parece se expandir.

Inaugurado pela visita de Ogi ao consultório de um analista, cada novo diálogo (ou confissão) do rapper funciona como uma espécie de capítulo, indicando ao ouvinte a sequência de versos, personagens, cenas e acontecimentos que fragmentam/sustentam a obra. Diferente do álbum apresentado em 2011, um passeio pela periferia paulistana, com o presente disco, Ogi e um time composto por Thiago França, Juçara Marçal, Rael, Mao e Carlos Café se concentram em temas específicos, detalhando um pequeno universo de canções.

Logo na primeira porção do álbum, a resposta ao questionamento “o que acontece com você?”. Exposição do lado mais intimista do rapper, a trinca formada por Aventureiro, Na Estação da Luz e HaHaHa vai dos versos autobiográficos – “Disseram pra não me aventurar / Mas eu sou louco e ligeiro” – ao ambiente descritivo que cobre o entorno da Estação da Luz, em São Paulo – “E caminha angustiado, assustado, na Estação da Luz”. Um eficiente aquecimento para o encontro entre o rapper e Juçara Marçal na densa Correspondente de Guerra.

Peça isolada do disco, a canção que parafraseia Gil Scott-Heron – “Isso que você testemunhará / A televisão não transmitirá” -, funciona como um reflexo atormentado da sociedade brasileira, partindo de um conjunto de indivíduos e referências pessoais do artista para mergulhar em problemas que atingem os mais diversos grupos de marginalizados. Não por acaso os três atos de Trindade, bloco que marca o “capítulo” seguinte do disco, se distancia da figura de Ogi, “possuído” pelo espírito de diferentes personagens que habitam qualquer centro urbano – “Sinto que tudo que ouvisse eu absorvesse, sabe? E isso faz eu me sentir possuído“.

Entre Sete Cordas e Ponto Final, um cruzamento agridoce de ideias e arranjos que jogam o ouvinte para todos os lados. Flutuando entre o samba e o som urbano das batidas, Ogi lentamente perde a sanidade, parece assumir a identidade de diferentes personagens – vide o vampiro com sede de poder em Escalada – e tenta, de forma desesperada, vomitar todos os tormentos que o cercam durante a permanente sessão de análise. É justamente nesse bloco de canções que a produção do curitibano NAVE se expande, servindo de âncora para a metralhadora de versos instáveis disparados pelo rapper.

Passada a tumultuada sessão que define o registro, Ogi se despede do analista e parte em busca de uma descompromissada partida de futebol ao lado do parceiro Rael. Canção de encerramento do disco, a derradeira Faro de Gol utiliza de versos e bases essencialmente leves, funcionando como um respiro aliviado. Uma espécie de fuga rápida da avalanche pessimista, explícito descontrole emocional, personagens e todo o cenário caótico pincelado pelo rapper em cada minuto do álbum.

 

RÁ! (2015, Independente)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Criolo, Emicida e Rashid
Ouça: Correspondente de Guerra, Na Estação da Luz e Aventureiro

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