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Disco: “Rasura”, ruído/mm

ruído/mm
Post-Rock/Experimental/Instrumental
http://www.ruidopormilimetro.com/

Por: Cleber Facchi

Grandes discos sempre vêm acompanhados de boas histórias. Um caso de amor não resolvido, a iminente separação entre os integrantes de uma banda, viagens e distúrbios lisérgicos ou apenas frágeis acontecimentos mundanos. Cenas vistas da janela de um apartamento ou mergulhadas no fundo de um copo de cerveja. Em Rasura (2014, Sinewave), quarto disco de estúdio da curitibana ruído/mm, de um jeito ou de outro, todas essas histórias parecem se encontrar.

Naturalmente esquivo de palavras, o grupo explora o mesmo artifício dos antecessores A Praia (2008) e Introdução à Cortina do Sótão (2011), dialogando com o ouvinte por meio dos arranjos e melodias sempre versáteis. Ainda que subjetivo em razão da lírica “imaginária” de cada composição, como a capa do álbum indica, Rasura é uma obra projetada em um ambiente épico, quase cênico. Uma donzela em apuros, naves espaciais, guerreiros, planetas e paisagens pós-apocalípticas. Um cenário delineado, porém, aberto à interpretação e complemento do próprio ouvinte.

Uma vez transportado para dentro esse universo de histórias e cenas marcadas, não é difícil perceber o alinhamento preciso dos instrumentos em cada canção. Trata-se do registro mais direto e menos contemplativo já apresentado pelo grupo paranaense. Ainda que a inaugural Bandon cresça em um borbulhar de distorções tímidas, todo o restante da obra segue em uma corredeira intensa. Guitarras loucas em Cromaqui, ruídos ascendentes na “pacata” Transibéria e a completa ausência de controle na fragmentada Filete. Se existem histórias ao fundo de cada faixa, a tensão é constante.

Ao mesmo tempo em que a urgência natural do trabalho move o espectador, empurrado até a faixa de encerramento, Rasura encanta pela sutileza e imensa carga de detalhes. Melhor exemplo disso são as texturas que se escondem ao fundo de Eletrostática. Dividida em dois atos ascendentes de guitarras, a eufórica canção carrega na própria base um acervo de ruídos e distorções minimalistas quase imperceptíveis; fragmentos também ocultos e partilhados em faixas rápidas como Cromaqui e Inconstantina.

São estes mesmos arranjos disfarçados, “segredos” e encaixes precisos que definem a real beleza e nítida estrutura do trabalho: um imenso catálogo de obras condensadas em um único espaço instrumental. Como as imagens sobrepostas que ilustram a capa do álbum – trabalho assinado por Mário de Alencar -, cada porção do registro sobrevive de pequenas texturas e bases detalhistas, elementos realçados de forma expressiva na masterização de Mark Kramer (Galaxie 500).

Evidente representação da maturidade conquistada pela banda – hoje composta por Alexandre Liblik (teclados), André Ramiro (guitarra), Felipe Ayres (guitarra), Giovani Farina (bateria), Rafael Panke (baixo) e Ricardo Pill (guitarra) -, Rasura cresce como um trabalho imenso, por vezes mutável e inédito a cada nova audição. Na superfície, uma obra direta e grandiosa, com todas as “respostas” e possíveis exigências de um registro acessível; ao fundo, harmonias enevoadas, segredos e um cenário gigantesco a ser explorado.

 

Rasura (2014, Sinwave)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Kalouv, Constantina e Dunas
Ouça: Eletrostática, Transibéria e Cromaqui


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