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Disco: “Reality Testing”, Lone

Lone
Electronic/IDM/Hip-Hop
https://www.facebook.com/magicwirelone

Por: Cleber Facchi

Lone

O teor frenético encontrado por Matt Cutler há dois anos, em Galaxy Garden (2012), parece longe de orientar a presenta fase do produtor como Lone. Ainda que a relação do artista inglês permaneça sustentada pela eletrônica dos anos 1990 – House, Ambient ou os experimentos da IDM -, em Reality Testing (2014, R&S), mais recente invento do artista, o resultado passa a ser outro. Menos “conceitual”, o disco se manifesta como uma verdadeira colagem de essências, fórmula que está longe de fugir da precisão estética dos últimos álbuns.

Talvez com exceção da faixa de abertura, First Born Seconds, cada segundo dentro da obra se manifesta como uma readequação do Instrumental Hip-Hop. Ainda olhando para o passado – principalmente para o trabalho de J Dilla, Madlib e, de forma autoral, DJ Shadow -, Lone utiliza de cada criação do disco como uma doce adequação de velhas imposições. Nostálgico, mas não menos transformador – vide o diálogo com a cena Garage -, o novo catálogo de Cutler é uma obra de temas atmosféricos, abstratos, mas não menos desafiadores em relação aos antigos temas do produtor – ou mesmo suas influências.

Da mesma forma que o bem sucedido single Airglow Fires, de 2013, Reality Testing usa de sintetizadores atmosféricos (no melhor estilo Boards Of Canada) como uma delicada base instrumental para o restante do disco. Todavia, enquanto a canção apresentada há poucos meses alcançava o mesmo detalhamento entusiasmado do disco de 2012, abraçando as pistas em sua “segunda parte”, com o presente disco Lone mantém os beats densos, típicos do Hip-Hop.

Outro aspecto importante em relação ao novo cenário desenvolvido por Cutler, diz respeito ao uso de diálogos e vocalizações aleatórias no meio das faixas. Livre de qualquer caráter “gratuito” e dissolvidos ao longo do registro, os samples de vozes criam uma imposição ruidosa em proximidade ao efeito essencialmente límpido do álbum de 2012. Basta perceber como Restless City e Meeker Warm Energy gerenciam essa estrutura, expandindo o teor “urbano” que recheia o álbum. A medida parece vir como uma alternativa à ausência de rimas – instintivas em faixas como a arrastada 2 is 8.

Embora delineado por uma série de colagens referenciais – vide a aproximação com o East Coast Hip-Hop dos anos 1990 -, Reality Testing está longe de ecoar como uma obra menos orgânica. Diferente de outras obras do gênero, orientadas pela fluidez sobreposta dos samples, com o novo álbum Lone parece criar cada mínimo ruído do álbum – seja ele espontâneo ou propositadamente inserido por entre as faixas. Mesmo as vozes assumem um caráter “instrumental”, se acomodando em meio ao fluxo onírico dos sintetizadores.

Ao mesmo tempo em que soa como uma obra assinada por Cutler, o disco não oculta a relação com o trabalho de uma série de artistas conterrâneos ao produtor. Há desde adaptações do trabalho de Actress (Coincidences), até faixas que soam como um Rustie mais “maduro” e ponderado (Cutched Under). De forma simples, Reality Testing pode ser encarado como um imenso resumo de tudo o que abasteceu a eletrônica, Hip-Hop e demais vertentes instrumentais/experimentais nas últimas duas décadas. Tudo isso sem perder a evidente autonomia de seu próprio criador.

 

Lone

Reality Testing (2014, R&S)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Rustie, J Dilla e Madlib
Ouça: Airglow Fires, Cutched Under e Restless City