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Disco: “Repave”, Volcano Choir

Volcano Choir
Indie/Folk/Alternative
http://volcanochoir.com/

Por: Cleber Facchi

Volcano Choir

O longo distanciamento entre um trabalho e outro, a plena compreensão sobre a própria obra e um domínio maduro dos versos garantiram a Justin Vernon um território isolado no cancioneiro norte-americano. Seja aos comandos do Bon Iver ou dentro das incontáveis colaborações que alicerçam o trabalho de outros artistas – entre os mais recentes Kanye West e Poliça -, cada verso sussurrado pelo cantor se encaminha para um teor de beleza irreplicável. Tratamento autoral para o que engrandece a construção de Repave (2013, Jagjaguwar), segundo e mais novo trabalho de Vernon com os parceiros do Volcano Choir.

Em um direcionamento contrário ao planejamento acústico que se estende por todo Unmap (2009), estreia do coletivo, o novo álbum eleva a mesma proposta que Vernon vem desenvolvendo desde o último disco do Bon Iver, agora, em um teor cada vez mais próximo do épico. Com um destaque ainda maior para as interferências sintéticas – principalmente as vozes consumidas pelo autotune e os sintetizadores eletrônicos -, a banda usa do registro em um projeto de escada, como se a cada passo dado, mais intensamente os elementos são aplicados.

Dentro dessa estratégia, Tiderays, faixa de abertura da obra, entrega ao público toda a base conceitual que conduz a arquitetura do registro. Enquanto sintetizadores são aplicados em um acabamento atmosférico, guitarras crescem e abaixam a todo o instante, abrindo caminho para que a voz de Vernon apareça rodeada por emanações densas. Ora matinal, ora trabalhada como uma trilha para o crepúsculo, a canção lentamente se distancia do compilado Folk apresentado há quatro anos, princípio para o que Acetate, Byegone e demais composições da presente obra aprimoram com pequenas orquestrações.

Saboreando a própria voz e permitindo que ela cresça ilimitada, Justin Vernon deixa de ser apresentado como uma linha condutora (típica no disco passado) para se converter em “instrumento”. Comrade, terceira faixa do álbum mostra exatamente isso. Ainda que o abrandado jogo de sons deem conta de impulsionar a canção, é no bem empregado espaçamento de vozes que a música se sustenta. São pequenas transições em loop que crescem em paralelo aos versos lineares do artista. Pedaços picados de vocalizações a serem esparramadas com verdadeiro cuidado, mesmo quando os arranjos de guitarras parecem predominar, como em Dancepack.

A busca por um cenário de transformação constante em nenhum momento inviabiliza a relação da banda com diversas marcas expostas no trabalho passado. Basta um passeio atento pela composição pacata de Keel e Alaskans para perceber isso. Enquanto as demais faixas do registro parecem trabalhadas de maneira a soterrar o ouvinte sob vozes, acordes e batidas, as duas tímidas canções assumem na tonalidade leve um percurso de oposição. São nitidamente fragmentos de Unmap, principalmente na forma como os vocais de Vernon parecem longe de qualquer emulação eletrônica.

Denso, Repave se apresenta como uma obra a ser absorvida em doses. Mesmo que os arranjos sejam entregues em uma presença pontuada pelo acerto e a comoção, o formato amargo que orquestra os sons e principalmente os versos praticamente obrigam o ouvinte a estabelecer pequenos respiros ao longo da obra. Parece até difícil chegar ao fim do álbum em uma só audição, o que de maneira alguma exclui o acerto e a beleza das canções, apenas converte o álbum em uma obra que parece escolher o próprio tempo para se revelar em essência ao ouvinte.

Volcano Choir

Repave (2013, Jagjaguwar)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Bon Iver, Fleet Foxes e Arcade Fire
Ouça: Comrade, Byegone e Acetate

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