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Disco: “Rio Shock EP”, Rio Shock

Rio Shock
Brazilian/Electronic/Funk
https://www.facebook.com/rioshockmusic

Por: Cleber Facchi

Rio Shock

João Brasil passou a última década brincando com a colagem entre sons estrangeiros e ritmos nacionais – principalmente o Funk Carioca. Dos inventos em carreira solo, passando pela produção em trabalhos de outros artistas, até o ousado 365 Mashups, cada projeto assinado pelo carioca se distancia de um possível estágio de redundância, assumindo na desconstrução das próprias bases musicais um sustento inteligente. Entretanto, com o curioso Rio Shock, trabalho que funde o princípio do Funk com a matemática da Deep House, pela primeira vez Brasil encontra na linearidade entre as referências um ponto de sustento e consistência para os próprios inventos.

Musicalmente econômico, o registro de quatro faixas firma na estética – cada vez mais presente – da década de 1990, um abastecimento natural para a obra. De um lado, a fluidez sintética que ocupou a cena britânica e hoje vive de forma inteligente nas músicas de Disclosure e AlunaGeorge. No outro oposto, a fase mais rica e ainda assim controladamente comercial dos sons sustentados pela série Furacão 2000. Uma interferência constante de expressões culturais que atravessam o Atlântico, se entrelaçam de forma nostálgica e chegam como novidade para as pistas. Mais uma obra perfumada pela malandragem de João Brasil, mas que não exclui a postura nítida de maturidade de seu criador.

Primeiro grande invento não assumido com exclusividade pelo produtor, Rio Shock traz na voz polida de Dannie e no tempero sedutor de MC Sabará um sustento para além das bases e beats. Casando descompromisso com formalidade, o artista cria um cenário próprio, ainda raro no Brasil, mas de forma relação com a cena estrangeira. São emulações que esbarram na estética de Corona, La Bouch e outros nomes de peso na eletrônica dos anos 1990. Uma sensação constante de que What Is Love? (de Haddaway) ou Move It Up (do duo Cappella) subiram o morro em busca de novidade, resultando em um projeto que fluta pelo tempo sem se apegar a um gênero ou base conceitual específica.

Na contramão do que caracteriza a obra particular de João Brasil, com Rio Shock as rimas de cunho sexual e frases em duplo sentido abrem espaço para um cenário em que a sensualidade fala mais alto. Nada é encarado de forma explícita, o que faz com que o EP se converta em uma imensa preliminar para o que existe de mais “sujo” na obra paralela do carioca. Tendo nos versos de Sensualizar um princípio para toda a formação lírica do registro – “O calor subindo/ Não sei onde vai chegar/ Pele encontra pele/ Tiroteio de olhar” -, o trio (junto do percussionista Junior Teixeira) mantém em alta construção de um álbum lascivo, formato que cobre vozes e sons com os mesmos lençóis.

A presença de Dannie e MC Sabará, longe de apenas separar o Funk da Eletrônica, serve para estimular a dicotomia erótica que define toda a formação do registro. Como um constante diálogo entre os sexos, o trabalho esbarra em traições, versos de assumida provocação e personagens que se alternam de forma instável ao longo das canções. Brasil, longe do apenas construir as bases para o EP, cria verdadeiros cenários para que casais, amantes ou completos desconhecidos se encontrem pela obra. São ambientações que vão das pistas à cama, passando por becos ou quarto de motéis, tudo em um jogo agressivo de olhares, tapas e beijos que aos poucos se convertem em mordidas.

Longe de soar como um retrato nostálgico de uma época, Rio Shock EP é um trabalho que dialoga de forma ativa com o presente. Seja nas batidas versáteis de Moleque Transante, como nos sintetizadores climáticos de Surreal, cada canção dissolvida pelo registro reforça a capacidade de João Brasil em brincar com as próprias referências. Assim, mesmo que o cheiro dos anos 1990 esteja impregnado nas quatro faixas do álbum, o tempero e a essência do produtor aproximam o trabalho de um novo resultado – muito mais provocante do que qualquer obra de destaque no exterior.

Rio Shock EP

Rio Shock (2013, Som Livre)

Nota: 8.2
Para quem gosta de: João Brasil, Strausz e Disclosure
Ouça: Sensualizar e Moleque Transante

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