"Ruins"

Ano: 2014
Selo: Kranky
Gênero: Dream Pop, Ambient, Lo-Fi
Para quem gosta de: Julianna Barwick e Julia Holter
Ouça: Holding, Call Across Rooms e Made Of Air
Nota: 8.6

Disco: “Ruins”, Grouper

O coaxar de sapos, bases atmosféricas e a constante interferência de ruídos ambientais. Ruins (2014, Kranky) não é apenas um disco, mas um refúgio. Abrigo detalhado de Liz Harris, a mais recente obra do Grouper nasce da desconstrução dos primeiros (e complexos) registros “de estúdio” da norte-americana. Voz doce, versos confessionais e um diálogo detalhado com o ouvinte. Ainda que isolada em uma floresta de sensações e experimentos próprios, cada brecha do álbum soa como um convite. A redescoberta de um espaço desbravado em totalidade pela musicista, porém, ainda curioso ao visitante.

Em um sentido de expansão do material apresentado em The Man Who Died In His Boat, de 2013, Harris detalha o presente invento como uma peça de possibilidades controladas. O experimento ainda é a base para a formação da obra, porém, diferente do alinhamento assumido em registros como A I A: Dream Loss e Alien Observer, ambos de 2011, formas harmônicas e versos “fáceis” interpretam o ouvinte como um convidado, e não um personagem a ser afastado pela obscuridade das canções.

A exemplo de Julianna Barwick em The Magic Place (2011), Ruins é uma obra detalhada pelo conforto e sutileza dos arranjos. Perceba como todos os elementos do álbum assentam lentamente, convidativos, como se Harris encontrasse um espaço exato para cada fragmento de voz ou tímida peça instrumental. Protagonista de uma história confidencial, Grouper detalha sussurros de forma linear, um conto breve, concepção talvez evidente no disco de 2013, porém, encarada de forma concisa dentro do bloco de formas harmônicas do presente invento.

Volátil, ao mesmo tempo em que preenche o interior da obra com detalhes sutis, límpidos, abraçando o ouvinte a seu próprio tempo, Harris em nenhum momento se distancia da gravação artesanal incorporada à própria discografia. Basta se concentrar na textura cinza de ruídos que cresce ao fundo das canções, ou no “bip” seco de microondas que rompe com a morosidade de Labyrinth. Um meio termo entre o cenário fantástico do disco e a inevitável aproximação da artista/espectador com o “mundo real”.

Distante do acervo de temas aleatórias instituído em Dragging a Dead Deer Up a Hill (2008), obra que apresentou o trabalho de Harris ao público, Ruins explora cada peça como o sutil fragmento de uma estrutura maior. Mesmo que seja possível mergulhar no isolamento de Holding, Lighthouse e demais atos serenos do álbum, de forma coesa, o núcleo do trabalho permanece inalterado. Um cíclico reaproveitamento de arranjos – ruídos “orgânicos” e variações da mesma base de pianos – e versos – densa massa de sentimentos assumidos pela cantora.

Ainda que a exposição de Harris sirva como base para o tom melancólico do álbum, vide o saudosismo em Holding – “Eu ouço você me chamar e quero ir/ Direto para o vale de seus braços e lá desaparecer” -, descende da própria concepção do disco a atmosfera triste que acompanha o ouvinte. Embora atual, Ruins é uma obra resgatada do vasto acervo de Grouper e finalizada há poucos meses. Trata-se de um registro de 2011, produzido e parcialmente finalizado durante um período de isolamento da artista em Portugal. Talvez “um documento”, como resume o próprio texto de apresentação, todavia, para os ouvidos mais atentos, um imenso sítio arqueológico de confissões ainda preservadas. Ruínas, sentimentos e fragmentos raros a serem desvendados pelo ouvinte com a mesma serenidade que sustenta cada canção.


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