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Disco: “Seis”, Lestics

Lestics
Indie/Folk/Alternative
http://www.lestics.com.br/

Mergulhar no ambiente autoral da paulistana Lestics não é algo que o ouvinte possa encarar como uma “experiência agradável”. Por mais que os arranjos e a execução de cada trabalho em estúdio se manifeste de forma coesa, a honestidade explícita nos versos de Olavo Rocha reforçam um sentimento de oposição. Angústia, arrependimento, saudade e dor. Palavras encaixadas lentamente para perturbar o espectador, convidado agora a desbravar o universo econômico e ainda assim amplo de Seis (2014, Independente), mais novo álbum da banda.

Mesmo longe de manifestar a crueza de faixas como Náusea a Dois Olhos, referências amargas das canções que abasteceram os dois primeiros discos da banda – 9 Luas e Les Tics, ambos de 2007 -, Seis ainda é uma obra que ataca as emoções. Em geral, são faixas guiadas por temas urbanos, personagens presos a pequenas rotinas e instantes de melancolia diária. Recortes e fragmentos líricos aleatórios que se engrandecem ao esbarrar no detalhamento atento dos arranjos – os mais envolventes de toda a discografia do grupo.

Escolhida para abrir o curto registro – são apenas 25 minutos de duração -, Entre Caracas e Paramaribo resume boa parte da “nova fase” da banda – em funcionamento desde a chegada do álbum Aos Abutres, de 2010. Naturalmente particular, cada verso anunciado por Rocha trata de aspectos que movimentam seu próprio cotidiano. Um tratamento obviamente egoísta, mas que em nenhum momento exclui o ouvinte dessa equação, vide o esforço natural de qualquer pessoa no eixo final da canção: “Já me disseram que dessa maneira/ Eu Não Vou Muito Longe/ Mas eu não vou parar enquanto não chegar/ Aonde o sol não se esconde“.

Por falar nessa busca do cantor/personagem por um cenário idílico – real ou alegórico -, grande parte das canções espalhadas pela obra atentam para a mudança, a busca e o descanso final. Seis, como indicam as faixas O Lado de Lá e Tempo de Partir, é uma obra sobre transformação, deixar pequenas inconveniências para trás e apontar para o novo. Partindo desse conceito, Rocha deixa de cantar sobre temas momentâneos, típicos em História Universal do Esquecimento (2012), para soar existencialista, amplo mesmo nas limitações físicas do trabalho. “O que você ainda está fazendo aqui?“, pergunta o músico em um dos instantes que forçam o movimento do álbum.

Essa suposta necessidade de mudança não se materializa apenas no delineamento lírico da obra, mas em seus arranjos. Diferente dos últimos discos, Seis é uma obra que soa curiosa em diversos aspectos, longe do hermetismo habitual que guia a banda desde o álbum de estreia. Do trombone volátil de Bocato na faixa de abertura, passando pelos acordes abertos em Um jeito especial de dar errado, cada passo dado pelo trio de instrumentistas no decorrer da obra reflete a busca por novas possibilidades rítmicas e estéticas.

Mesmo pequeno em se tratando do número de faixas, Seis talvez seja a obra mais ampla do grupo desde o rico detalhamento exposto em Les Tics – ainda, a mais honesta e completa obra da banda. Em poucos minutos, Olavo Rocha e os parceiros não apenas amarram as pontas soltas nos últimos discos, como apresenta um catálogo de soluções para os futuros inventos do grupo. São “apenas” seis faixas, mas a impressão ao alcançar a derradeira O Começo (título mais do que coerente) é a de que temos em mãos um pequeno universo em expansão.

 

Seis (2014, Independente)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Beto Só, Quarto Negro e Lemoskine
Ouça: Tempo de Partir, O Começo e Entre Caracas e Paramaribo