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Disco: “Setembro EP”, Mahmundi

Mahmundi
Brazilian/Indie/Chillwave
https://www.facebook.com/mahmundionline

Por: Cleber Facchi

Mahmundi

Desacelerar e fechar as cortinas. O Calor do Amor que até pouco tempo emanava  do trabalho de Marcela Vale com o Mahmundi, agora aparece frio, tímido e machucado pela saudade. Longe do pop nostálgico e do brilho empoeirado de outrora, a cantora e compositora carioca se fecha em um emaranhado melancólico de palavras, transformando o recém-lançado Setembro EP (2013, Independente) em uma obra egoísta, mas, nem por isso, difícil de impressionar. Confessional em totalidade e construído em um território de beleza lírica própria, o registro é a antítese da obra anterior, Efeito das Cores (2012), ao mesmo tempo em que se revela como uma completa continuação do mesmo teor sentimental que habita na obra da artista.

Em uma atmosfera de contraste, enquanto o EP entregue no último ano se apresenta como uma obra impulsionada pela estética matinal-oitentista, Setembro é a noite. Mesmo encorpadas e dominadas por pequenas emanações densas, as canções se acomodam em uma atmosfera essencialmente intimista, como se Vale conduzisse o espectador por um Rio de Janeiro melancólico, cinza e conhecido em totalidade apenas dela. “Então eu pego o trem e atravesso a cidade/ Pontes da Zona Norte a Zona Sul de mim”, anuncia ela na amargura de Arpoador, canção que poderia ser de Cazuza, mas assume nas pequenas confissões um ponto de identidade própria da artista. Pela orla da praia, ou dentro da própria cabeça, Vale caminha solitária observando atenta diferentes terrenos e sentimentos.

De manuseio simples e versos curtos, cada canção do álbum concentra na efemeridade dos arranjos e temas um princípio delicado para a condução do trabalho. É como se Vale, longe do detalhamento imposto no registro passado, se concentrasse agora na simplicidade, ou quem sabe na leveza, como bem anuncia a faixa que dá fim ao disco – “Leve/ Me Leve/ Eu Ficarei Mais Leve”. Dentro desse propósito, Setembro se esparrama confortavelmente em uma atmosfera caseira, rústica em alguns aspectos, como se os ruídos, vocais parcialmente empoeirados e arranjos econômicos fossem resultado de uma preguiça doce, intencional. Minutos que, tão rápido iniciam, se extinguem em meio a samples tímidos ou vozes parcas.

Atenta ao cenário musical recente, Vale e o parceiro Lucas de Paiva – responsável pelo catálogo de samples e arranjos eletrônicos da obra – desfilam pelo trabalho pinçando referências externas. Se antes a cantora queria ser Chaz Bundick (Toro Y Moi) ou Alan Palomo (Neon Indian), agora ela é Jessie Ware (Vem), brinca com os ruídos de Nicolas Jaar (Setembro) e ainda passa por uma metamorfose que esbarra no R&B da década de 1990, no melhor estilo AlunaGeorge. Dentro desse jogo de interferências e captura de essências está a capacidade da artista e do companheiro em encontrar algo novo, exercício inicialmente potencializado pelos versos, mas que se espalha no manuseio incerto dos instrumentos – sejam as guitarras minimalistas ou os sintetizadores de traço pueril.

Ainda que Paiva acompanhe a parceira do começo até o fim da obra, Setembro é um registro inteiramente centrado em Vale. Das guitarras em loop, que garantem a totalidade instrumental da música de encerramento, ao expandir da bateria, teclados e baixo em Arpoador, cada instante do curto registro é uma manifestação do que orienta conceitualmente os rumos de sua criadora. Como se estivesse à espera de algo/alguém que a retire da melancolia a que esta submetida, a cantora atravessa o álbum em um lamento particular, mas de fácil identificação para o ouvinte. Seja na declaração de amor que cresce em Vem (“Com você eu tô seguro pra saber o que é viver”) ou na libertação de Prelúdio (“Deixar a brisa/ Sigo em Paz”), a artista entrega ao público sentimentos e situações de qualquer indivíduo de alma fragmentada. As mesmas expressões, atos e sentimentos de um ser mergulhado em amargura, porém, agora musicadas.

Se a noite é a base do novo projeto, ao chegar em Leve, no fim do EP, Marcela Vale encontra a madrugada, transformando a canção em uma conexão direta com o trabalho anterior, matinal e solar. Como um complemento ao ato lançado em 2012, ou quem sabe uma continuação aos sons entusiasmados do também pequeno registro, Setembro substitui a felicidade pelo lamento, finalizando uma obra de duas metades: uma para os dias de celebração, e outra para os instantes de sofrimento.

Mahmundi

Setembro (2013, Independente)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Silva, Cícero e Opala
Ouça: Arpoador, Vem e Leve

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