"Shaking the Habitual "

The Knife

Ano: 2013
Selo: Rabid
Gênero: Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Fever Ray e Planningtorock
Ouça: Full of Fire e A Cherry On Top
Nota: 9.0

Resenha: “Shaking The Habitual”, The Knife

A música eletrônica nunca foi encarada de forma convencional pelos irmãos Karin e Olof Dreijer. Desde a estreia da dupla com o autointitulado disco do The Knife, os sintetizadores, batidas, encaixes eletrônicos e principalmente os versos abriram as portas para um cenário marcado pelo instável. Um meio termo particular entre os engenhos de Kate Bush pós-Hounds of Love (1985), toda a vivacidade que tomou conta da carreira de Björk durante a década de 1990, além de traços específicos de sons que parecem habitar apenas as composições do casal. São doses sempre exageradas de reverberações sintéticas, capazes de alimentar registros essenciais como Deep Cuts (2003), a ópera eletrônica Tomorrow, In a Year (2010) e o mais significativo deles, Silent Shout (2006), um dos trabalhos mais importantes da eletrônica dos anos 2000. Uma carreira sempre pensada em cima da desconstrução dos sons em prol da novidade.

Não por acaso a expectativa em torno de Shaking the Habitual (2013, Rabid), quarto trabalho da banda, veio de forma natural. Afinal, o que esperar da dupla sueca depois de uma sequência de lançamentos tão assertivos, complexos e comerciais na mesma medida? A resposta parece vir de forma ainda mais natural do que a pergunta, revelando no novo álbum uma sequência (inicialmente) difícil de experimentos e temas tão amplos, que mais uma vez distorcem o universo construído ao longo de uma década pelos irmãos Dreijer. Imenso – são mais de 95 minutos de duração, além de faixas que ultrapassam com tranquilidade os nove minutos -, o recém-lançado álbum rompe com qualquer relação prévia, transformando todas as heranças adquiridas em um mero complemento para um plano de completa reformulação e instabilidade.

Diferente dos projetos anteriores, com o quarto disco o The Knife praticamente tranca o ouvinte dentro do cenário estabelecido na obra para que haja uma completa absorção da mesma. Quem esperava por uma possível extensão do que a banda conquistou em Silent Shout ou prováveis hits aos moldes de Heartbeats e You Take My Breath Away encontrará apenas o oposto. Mesmo os instantes mais convidativos de A Tooth For An Eye ou Full Of Fire não conseguem esboçar qualquer sinal ou força radiofônica, alimentando a resolução de que o presente disco precisa ser observado em unidade, como uma obra fechada em que cada composição impulsiona a canção seguinte.

Talvez pela experiência com o registro de 2010 (parceria com a excêntrica Janine Rostron, do Planningtorock), Shaking the Habitual partilha de uma temática conceitual para abastecer cada umas das 13 faixas que o conduzem. Como a dupla revelou por meio de quadrinhos em sua página oficial, o novo álbum se concentra na proposta do “Fim da Riqueza Extrema”. Trata-se de uma observação que critica os luxos exagerados e a concentração de 85% da riqueza do mundo nas mãos de apenas 10% da população. A temática – também defendida pelos manifestantes do Occupy Wall Street – serve de base para as letras do disco, que pela primeira vez se distanciam do ambiente pessoal de Karin Dreijer Andersson. Logo, fica mais do que claro que não temos em mãos uma obra conduzida pela mesma eletrônica convencional que abastecia a dupla ou mesmo outros projetos do gênero, o que em alguma medida pode auxiliar o ouvinte a passear pelo estranho terreno produzido pelo casal durante a extensão do disco.

Enquanto discorre (por vezes metaforicamente) sobre economia e desigualdade, Andersson e o irmão utilizam do álbum não como uma continuação do trabalho passado, mas de tudo o que a cantora/produtora conquistou ao estrear em carreira solo com o Fever Ray. Estão lá as bases extensas calcadas no Drone e Dark Ambient (Old Dreams Waiting To Be Realized), manipulações sonoras consumidas pelos experimentos (Fracking Fluid Injection) e, principalmente, a finalização de sons delineados por batidas fortes e de orientação quase matemática (Full of Fire). Comercialmente dividido em dois atos, o disco traz na segunda metade o ponto de maior experimentação dos suecos. Seja por meio da relação com o Afrobeat/Jazz em Raging Lung, ou a música Techno e os conceitos de Aphex Twin em Networking, tudo soa como se o duo assumisse integralmente a curva irregular iniciada com The Captain, no trabalho passado, barrando (quase) totalmente a construção de possíveis hits.

Se por um lado Shaking the Habitual rompe com a estratégia bem elaborada da dupla em Silent Shout – um trabalho que ainda hoje consegue soar maduro e acessível na mesma proporção -, por outro lado a busca por uma sonoridade nada óbvia impede o casal de encontrar um som repetitivo, esmagando o surgimento de uma possível zona de conforto. Com exceção dos vocais e raros apontamentos eletrônicos, nada do que encontramos no novo álbum remete ao passado recente da dupla. Dessa forma, sem se importar com possíveis razões comerciais ou temas que se aproximem do grande público, o The Knife inaugura uma nova etapa dentro da própria discografia, trazendo na complexidade dos sons, letras e temas um cenário de possibilidades infinitas assumidas logo no título da obra.


Shaking the Habitual (2013, Rabid)

 

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