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Disco: “Shuffle”, André Paste

André Paste
Brazilian/Electronic/Alternative
https://soundcloud.com/andrepaste

Por: Cleber Facchi
Fotos: André Paste / Hick Duarte 

Aos domingos, casais lutando por sabonetes em uma banheira e ereções televisionadas. No rádio, a eletrônica curiosa das sete melhores da Jovem Pan, o domínio do Axé Bahia, além da lenta expansão do Funk Melody – posteriormente adaptado por Latino em sua fase “autoral”. Faustão, o Sushi Erótico e a completa inexistência (ou construção) do termo “politicamente incorreto”.

Quem deixou a década de 1990 acontecer?

Involuntariamente educado por todo esse acervo de referências sonoras e visuais – principalmente visuais -, talvez venha daí a resposta para o som bem-humorado e versátil do capixaba André Paste. Hábil na construção de músicas que aproximam Indie, Pop e até versículos bíblicos do Funk Carioca – caso da mixtape Cid Moreira On The Dancefloor -, Paste explora em Shuffle (2014), primeiro álbum de estúdio, um material distinto em relação aos primeiros trabalhos, brincando com as próprias referências, mas sem escapar de um projeto autoral.

De cara, uma surpresa. Os tradicionais mashups e remixes cômicos que apresentaram o produtor foram descartados do registro. Em um domínio próprio, Paste sustenta 11 peças originais e inéditas – três delas vinhetas. Músicas fragmentadas entre diferentes vozes, músicos e colaboradores, porém, incapazes de ocultar a essência debochada do produtor. Em um esboço de maturidade, Shuffle sintetiza o mesmo som irônico e dançante de mixtapes como Mezenga & Berdinazzi, Gangsta Brega e qualquer registro arquivado no soundcloud do capixaba.

Mesmo homogêneo, Shuffle se divide com naturalidade em dois grupos de canções. Na primeira metade, o acervo “eletrônico” do álbum. Um meio termo entre o ensaio lançado em OrKuT, ainda em 2012, e o som “tropical” de Cashmere Cat. Faixas como Island (parceria com We Are Pirates) e A Calma (com Fepaschoal) que não apenas reforçam o crescimento de Paste, como a expressiva interferência de SILVA, responsável por boa parte dos instrumentos do disco, além dos versos e temas sintéticos explorados na confessional Laura – quase uma sobre de Vista Pro Mar (2014).

Dialogando com o passado, a segunda metade das canções resume de forma nostálgica grande parte das inspirações do produtor. Daft Punk em Don’t Hate, Just Celebrate; diferentes fases da EDM na ótima Requiem For Tiesto – “Miami/ Ibiza/ Berlim/ Belém” -, parceria com Waldo Squash (Gang do Eletro), além do retorno ao Funk Melody com João Brasil em Não Pode Parar – um misto de Princesa de MC Marcinho e Vitrine do cantor Latino. Sobra ainda a divertida Horóscopo, música cantada por Fábio Mozine, do Mukeka di Rato, mas que poderia facilmente ser encontrada em algum clássico do Raimundos ou Virgulóides.

Superficialmente, apenas um exercício do produtor em organizar parte do material apreciado por ele próprio nos últimos anos. Ao mergulhar de cabeça do disco, uma lenta construção da identidade musical de Paste – possivelmente reformulada em um futuro álbum.

Desprovido de um posicionamento específico das faixas, conceito explícito no próprio título, Shuffle em nenhum momento tende ao excesso. Desenvolvido ao longo de dois anos, com músicas pensadas em cima de cada parceiro”, o disco flui sem pressa, limitado ao uso de versos cíclicos e bases tímidas, quase minimalistas. Entretanto, como em toda boa festa, antes de tocar as melhores composições é necessário preparar o terreno, aquecer a pista e seduzir o público. Em Shuffle, André Paste não apenas cumpre essa “função”, como ainda antecipa um segundo ato. Seguindo a orientação da faixa de encerramento: Don’t Hate, Just Celebrate.

 

Shuffle (2014, Independente)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Silva, João Brasil e Jaloo
Ouça: Não pode parar, Requiem For Tiesto e Laura