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Disco: “Smother”, Wild Beasts

Wild Beasts
British/Indie/Alternative
http://www.myspace.com/wildbeasts

Por: Cleber Facchi

Parece que determinadas bandas estão fadadas a serem lembradas unicamente por seu grande disco de estúdio e seu eminente fracasso, lançado logo em sequência. Isso é algo que vem se repetindo desde o começo da última década, dando aos artistas do novo século um caráter fragilidade e aspecto descartável, afinal, foram poucos os que realmente mantiveram uma linha contínua de bons lançamentos – Franz Ferdinand, Yeah Yeah Yeahs e Arcade Fire entre eles – dentro da gigantesca ladeira que é o rock dos anos 2000. Ao contrário de décadas anteriores, onde o lançamento passado servia de aprendizado para o próximo trabalho, em tempos presentes tudo é excessivamente plástico, tosco e facilmente esquecido na próxima semana.

Seguindo por uma linha totalmente contrária a isso, o quarteto britânico Wild Beasts (pouco, ou praticamente nunca citados em terras tupiniquins) teve desde seu primeiro disco uma sequência de aprendizados, reformulando seus sons e angariando uma característica que poucos grupos contemporâneos conseguem agregar: um som próprio. Embora bem pontuado por toda a imprensa, tanto a britânica quanto a norte-americana, Limbo, Panto de 2008 acabou pouco mencionado, talvez por não dar formas a singles fáceis ou colagens pegajosas típicas do rock inglês, entretanto, o disco soava como um verdadeiro frescor e dava claros apontamentos, que do grupo viriam bons trabalhos.

A mente fervilhante de Hayden Thorpe (vocal, guitarra, baixo e teclados), Ben Little (guitarra e teclados), Tom Fleming (baixo, vocal, guitarra e teclados) e Chris Talbot (bateria e vocais) fez com que logo no ano seguinte o quarteto voltasse à cena (trocadilho mais do que coerente, já que a sonoridade da banda vale-se de diversos elementos encontrados nas apresentações de Cabaré e Vaudeville, um tipo de gênero teatral e de performance norte-americano, que incluía shows do horror, danças e canto) com Two Dancers (2009), trabalho que figurou nas principais listas de melhores do ano, tudo por conta da visível evolução da banda em sua sonoridade, que a partir de então pode realmente ser chamada de “sua”.

Pronto, agora seria esperar que o quarteto lançasse um terceiro disco, de menor qualidade que os dois trabalhos anteriores, e estaria fechado o ciclo. O grupo seria eternamente lembrado por seu segundo disco e sempre recordado como “um dos mais promissores de sua geração”, tendo que se virar com as futuras críticas, sempre saudosistas e melancolicamente pessimistas em relação aos futuros lançamento. Entretanto o Wild Beasts ainda não fechou seu ciclo, e assim como conseguiu surpreender lançando seu segundo trabalho de estúdio, consegue mais uma vez agradar seus ouvintes com outro maduro trabalho, repleto de melancolia, sofisticação e beleza, bem vindos à Smother.

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Quando Albatross, primeiro single do novo trabalho saiu há alguns meses, o pensamento de “ahh… é apenas um single, o restante não dever ser muito bom” foi mais do que imediato, afinal é isso que a maioria dos artistas contemporâneos fazem, uma pequena provinha para viciar e uma sequência lamentável de redundâncias pouco ou inexistentes de criatividade. Esse, porém, não é Smother, que logo em sua primeira faixa, Lion`s Share, mostra que o disco não é e nem pretende ser uma sucessão de mais do mesmo, mas sim um exercício de superação instrumental, com o quarteto embarcando em um universo sentimental, banhado por letras existencialistas e uma musicalidade soturna, tocada pelo uso de sintetizadores e pontuais experimentações.

São diversos os fatores que transportaram o Wild Beasts para dentro do panorama introspectivo e cuidadoso que vai se desenvolvendo no decorrer do trabalho. Entre os principais elementos está a mudança de casa da banda, originária de Kendal, na Inglaterra e que agora reside no distrito londrino de Dalston, onde parte do trabalho foi registrado. A literatura é outro ponto de clara importância dentro do novo álbum, com o quarteto assumindo em entrevistas a relevância de Mary Shelley, autora de Frankenstein, e da brasileira Clarisse Lispector no desenvolvimento das temáticas existencialistas que percorrem boa parte das faixas do presente álbum.

Se ao lançar OK Computer em 1997, o Radiohead havia encontrado na música vanguardista de Krzysztof Penderecki seu ponto de estabilidade instrumental, com o quarteto britânico esse mesmo equilíbrio veio alcançado pela influência de Steve Reich. O músico, que é um dos pais da música minimalista moderna se insere visivelmente dentro das camadas comportadas das faixas, com a banda deixando as experimentações voltadas ao Dream Pop (que eram suavemente encontradas no disco anterior) e partindo para o uso de um instrumental mais sintético, sem que para isso o grupo tenha de se desligar de toda a ambientação orgânica que vem se desenvolvendo desde o primeiro disco. Quem também marca presença é a dupla conterrânea Fuck Buttons, que segundo os integrantes já afirmaram recentemente está inserida nas composições mais “eletrônicas” do álbum, como End To Come Soon, que encerra o disco.

Smother entra fácil no mesmo patamar de álbuns como Halcyon Digest (2010) do Deerhunter ou XX (2009) dos conterrâneos do The XX, ambos discos que trouxeram um sopro de inventividade para dentro de seus gêneros, ou mesmo para dentro da música contemporânea. Entretanto é difícil classificar esse terceiro álbum do Wild Beasts dentro de um seguimento único, afinal, ele é minimalista, porém seja voltado ao indie rock, abarca aspectos da música experimental, ao mesmo tempo que se apresenta como um achado da melancolia pop. Talvez “clássico” seja o rótulo mais coerente que o trabalho mereça agregar.

Smother (2011)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: The XX, Foals e The Maccabees
Ouça: o disco todo