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Disco: “Sobre A Máquina”, Sobre A Máquina

Sobre A Máquina
Experimental/Avant-Garde/Ambient Dark
http://sobreamaquina.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Sobre A Máquina

Os cariocas do Sobre A Máquina fizeram bem a lição no último ano. Com o lançamento de Areia, segundo álbum do projeto de Cadu Tenório, Emygdio Costa e Ricardo Gameiro, a síntese obscuro-experimental que teve início ao final de 2010 com o álbum Decompor foi aprimorada. Como resultado, o trio estabeleceu um novo marco na música carioca, unindo o trabalho da canadense Godspeed You! Black Emperor, o Pós-Metal-Industrial do fim da década de 1990 e a música de vanguarda norte-americana que explodiu na segunda metade do século passado.  Mais do que isso: o trio soube como poucos a maneira de absorver tudo o que existe de mais relevante na experimentação recente, traduzindo o resultado dessa incorporação no homônimo recém-lançado disco de estúdio.

Praticamente um renascimento musical quando observado em proximidade aos discos anteriores, com o autointitulado álbum a banda parece finalmente ter uma solução instrumental que está longe da preparação tímida e até redundante de outrora. Conscientes de cada propriedade que de fato define a música do SAM – sejam os ruídos abstratos ou as densas sonorizações -, pela primeira vez o ouvinte tem em mãos um disco em que a banda explora com nitidez todas as propriedades de cada integrante e, consequentemente, do próprio álbum.

Ainda mergulhados na mesma música instrumental alcançada em 2011, o grupo deixa crescer durante todo o álbum o que parece ser uma forte conexão com a atual música de vanguarda norte-americana. Enquanto os ruídos climáticos tendem inevitavelmente aos compostos de Tim Hecker no excelente Ravedeath, 1972, dos teclados aos bips eletrônicos – bem representados em músicas como Oito e Pulso – temos a presença clara de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), principalmente nos instantes mais densos do álbum Replica. A gama de pequenos realces conta ainda com um complemento recente, neste caso as melodias semi-épicas que conduzem a retomada de Michael Gira com o Swans. Acrescente uma carga extra de reverberações metálicas, sonorizações quebradas típicas da banda e pronto: você tem em mãos um dos trabalhos mais complexos e curiosos da recente música brasileira.

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Por mais específico e “difícil” que o álbum seja, a presença do saxofonista russo Alexander Zhemchuzhnikov – antes colaborador e agora membro fixo do grupo – surge em alguma medida como um ponto de leveza e maior aproximação para o ouvinte médio. A verve jazzística – trabalhada com satisfação nos extensos 21 minutos de Árvore – representa com primor tudo o que redefine a curta trajetória da banda – agora capaz de elevar e complementar os acertos já materializados no álbum anterior. Dono de uma sonoridade ainda mais esquizofrênica do que a proposta por Colin Stetson, Zhemchuzhnikov pontua o álbum com exatidão, servindo em alguns momentos como ponto de equilíbrio e em outros como acréscimo necessário para a obra.

Ainda que passear pelo trabalho se manifeste como uma busca constante por referências estrangeiras, parte absoluta do que conduz o presente álbum vem como um resultado particular dos próprios músicos. Facilmente uma das mais completas e originais músicas do disco, Vão orienta o (agora) quarteto de forma a brincar com a mente do ouvinte. Entre programações eletrônicas, guitarras que parecem blocos de metais se chocando e o tempero agridoce do saxofone de Zhemchuzhnikov, tudo é guiado de maneira a hipnotizar o público em uma brincadeira ruidosa e soturna. Um resultado por vezes confuso, mas instigante, como se quatro demônios do jazz se encontrassem em um território pós-apocalíptico de profunda destruição e ao mesmo tempo intensa criação.

Trabalhado como um registro que aprimora tudo o que já fora construído previamente pela banda, o álbum se mostra parcialmente falho por não se aproveitar de alguns recursos inéditos, entre eles os vocais. Mesmo que samples de vozes sejam explorados no decorrer de músicas como Pulso, permanece a sensação de vazio, como se o quarteto pudesse investir em uma proposta que acaba sem ser explorada. Não que o Sobre A Máquina devesse surgir em meio a cantos e letras consistentes, mas o simples exercício em transformar os vocais em um instrumento – como acontece com os demais elementos no decorrer do disco -, já seria o suficiente.

Carências à parte, até a última música o álbum cumpre com suas funções, consolidando de vez a formação do projeto mais desafiador (e obscuro) da nova cena carioca. Assim como nos lançamentos anteriores, o Sobre A Máquina, segue em meio a inventos que parecem feitos para desafiar a lógica do ouvinte, que ao aceitar tal provocação se depara com um exercício intencionalmente confuso e profundamente revelador.

Sobre a Máquina

Sobre a Máquina (2012, Sinewave)

Nota: 8.4
Para quem gosta de: Tim Hecker, This Lonely Crowd e Collin Stetson
Ouça: Vão, Oito e Pulso

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