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Disco: “Sobre a Vida em Comunidade”, Mahmed

Mahmed
Post-Rock/Instrumental/Experimental
https://www.facebook.com/mahmedmusica
https://mahmed.bandcamp.com/

Maturidade”, “crescimento” e “grandeza”. Palavras de significado forte, expressivas quando voltamos os ouvidos para o acervo sóbrio lançado pela potiguar Mahmed em Domínio das Águas e dos Céus EP (2013), porém, pequenas, quase insignificantes frente à grandeza de Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava). Em um assombroso traço de evolução, ao finalizar o primeiro álbum de estúdio, o quarteto do Rio Grande do Norte não apenas alcança um novo estágio dentro da própria sonoridade, como ainda prende o ouvinte em um labirinto de formas mutáveis; um álbum sedutor e provocativo a cada fragmento instrumental.

Montado em uma estrutura não-linear, pontuada por arranjos e texturas propositadamente instáveis, logo nos primeiros segundos dentro disco, a pergunta: estou sonhando? Como uma noite longa de sono embriagado, costurada por diferentes sonhos, passagens rápidas por pesadelos e até a tontura leve típica de exageros alcoólicos, SAVEC brinca com as interpretações do ouvinte. É difícil saber onde começa e acaba o álbum. Ondas leves de distorção arremessam, acolhem e mudam a direção das composições a todo o momento. Um constante cruzamento entre o onírico, o experimental e até o nonsense que corta em pedaços rótulos imediatos como “Jazz”, “Dream Pop” ou o inevitável “Post-Rock”. Todavia, mesmo a completa ausência de direção (ou previsibilidade) em nenhum momento distorce a sutileza e coerência da banda.

Da abertura letárgica em AaaaAAAaAaAaA ao som levemente acelerado que pontua o disco em Medo e Delírio, a coerência parece impregnada em cada nota lançada pela banda. Talvez seja um erro caracterizar SAVEC como uma obra de “limites bem definidos”, entretanto, mesmo nesse passeio pelo “mundo dos sonhos”, um linha imaginária, fina, parece direcionar o trabalho da banda – hoje composta por Walter Nazário (Guitarra, Samplers, Sintetizadores), Dimetrius Ferreira (Guitarra), Leandro Menezes (Baixo) e Ian Medeiros (Bateria). Curvas, quebras e mudanças (quase) bruscas de direção são nítidas em cada nova faixa, ainda assim, o controle é permanente.

Delicada representação desse resultado sobrevive de forma nítida na similaridade dos arranjos e distorções maquiadas das guitarras. Em um ambiente obscuro, um meio termo entre os clubes de Jazz e a cama de texturas assinadas por grupos como Portishead, cada composição serve de preparativo para a faixa seguinte; uma ativa troca de referências, estruturas e conceitos capazes de amarrar todas as canções em um bloco único de experiências. Mesmo a colagem de samples e ruídos instrumentais externos – como na “eletrônica” Ian Trip – mantém firme o senso de aproximação entre as músicas, como se as peças do quebra-cabeça criado ao longo do disco se encaixassem para formar uma única imagem.

Longe de ser encarado com um elemento de contraste, quanto mais exploramos a selva climática do disco, mais a voz parece aproveitada de forma provocante, ampliando os limites de cada canção. Como explícito logo na inaugural AaaaAAAaAaAaA, parceria com a cantora JJ Nunes, vocais ou mesmo o uso de cantos etéreos são articulados a partir de um doce movimento atmosférico, instrumental, como um tempero necessário para o manto jazzístico que se espalha do princípio ao fim do álbum. Em Vale das Rosas, por exemplo, mesmo o curto trecho de O Coelhinho Conta Histórias serve de base para o desenvolvimento dos arranjos, apontando a direção e transportando o ouvinte para um mundo de formas e personagens sempre fantásticos.

Para aqueles que prezam pela ordem e linearidade, um aviso: esqueça. Sobre a Vida em Comunidade não é um disco que apenas obriga, como parece montado para que o ouvinte possa mergulhar e se perder dentro dele. Ainda que o grupo estabeleça uma organização numerada para as faixas, todas as direções convergem de forma a revelar um mesmo percurso mágico, musicalmente capaz de fazer com que o cérebro flutue. Começo, meio ou fim, não importa a ordem, apenas dê o primeiro passo, deixe que a banda o conduza, afinal, todos os caminhos estão certos.

Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava)

Nota: 9.2
Para quem gosta de: Câmera, Terno Rei e Kalouv
Ouça: Shuva, Ian Trip e Vale das Rosas


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