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Disco: “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…”, Emicida

Emicida
Nacional/Hip-Hop/Rap
https://www.facebook.com/EmicidaOficial

Nunca antes Emicida pareceu tão esperançoso e ainda sóbrio quanto nas canções de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015). Segundo trabalho em estúdio do paulistano, o registro de melodias descomplicadas e rimas “fáceis” é, como indicado pelo próprio rapper, um verdadeiro “Cavalo de Tróia”. Uma obra de sonoridade acessível, convidativa aos mais variados públicos, porém, ainda forte, agressiva, dona do mesmo discurso conciso que define a obra do artista desde a estreia com a mixtape Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe… (2009).

De forte apelo emocional, vide a abertura com a melancólica Mãe – “Uma vida de mal me quer, não vi fé / Profundo ver o peso do mundo nas costa de uma mulher” -, o presente disco, assim como o antecessor O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), nasce como um trabalho em que Emicida ultrapassa os limites da periferia de São Paulo para dialogar com os mais variados grupos de marginalizados. Mulheres, homossexuais, trabalhadores, dependentes químicos e, principalmente, os negros.

Cês diz que nosso pau é grande / Espera até ver nosso ódio”, aponta o rapper na pesada Boa Esperança, décima canção do disco e um eficiente resumo de toda a obra. Análise amarga sobre a situação dos negros no Brasil, a música, uma parceira com J. Ghetto, estreita a relação entre o período de escravidão e o presente cenário nacional. Fragmentos marcados por perseguições (“Por mais que você corra, irmão / Pra sua guerra vão nem se lixar”), desrespeito (“Médico salva? Não! / Por quê? Cor de ladrão”) e morte (“Meu sangue na mão dos radical cristão”).

Ainda assim, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… é uma obra marcada pelo forte aspecto “positivo” das rimas. Bom exemplo disso está nos versos doces, pueris, que definem a curtinha Amoras. “Entre amoras e a pequenina eu digo: As pretinhas são o melhor que há”, declama Emicida na metafórica composição escrita para a filha. Quase uma continuação da adorável Sol de Giz de Cera, faixa dividida com Tulipa Ruiz no último disco, a música de versos curtos e sorridentes serve de complemento ao coro de vozes apresentado em Casa – “O céu é meu pai / A terra, mamãe / E o mundo inteiro é tipo a minha casa”, possivelmente a faixa mais acessível (e comercial) do presente disco.

A mesma leveza floresce na dobradinha Baiana e Passarinhos. Enquanto a primeira, uma parceira com Caetano Veloso, reforça o lado romântico de Emicida, abrindo passagem para o canto e o tradicional jogo de palavras que orienta a obra do compositor baiano, com a segunda canção, faixa dividida com Vanessa da Mata, o rapper manipula as rimas de forma suave, raspando de leve em elementos do reggae. Outro aspecto curioso da mesma faixa está na temática “ecológica” que sustenta os versos, conceito defendido com sobriedade na segunda metade da canção – “No pé que as coisas vão, jão / Doidera, daqui a pouco, resta madeira nem pros caixão / Era neblina, hoje é poluição / Asfalto quente queima os pés no chão”.

Fortalecido pela essência africana, durante toda a obra, personagens, referências religiosas, políticas e e culturais aproximam o trabalho do continente além mar. Ainda que Mufete seja a canção que melhor sintetize esse universo de temas – “Tá na cintura das mina de Cabo Verde / E nos olhares do povo em Luanda” -, do som de berimbau em Casa ao canto triste de Sodade – em crioulo cabo-verdiano -, a África sobrevive em cada brecha do disco. Versos, povos, cantos, lamentos e contestações que ditam com pluralidade a direção assumida até a última rima.

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015, Laboratório Fantasma)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Criolo, Rashid e Rael
Ouça: Casa, Boa Esperança e Passarinhos