Disco: “Sound & Colour”, Alabama Shakes

/ Por: Cleber Facchi 28/04/2015

Alabama Shakes
Blues Rock/Southern Rock/Alternative
http://www.alabamashakes.com/

Quando foi a última vez que você se emocionou com um disco de rock? Se a resposta for “há muito tempo”, Sound & Color (2014, ATO), segundo e mais recente álbum de estúdio do Alabama Shakes, talvez seja capaz mudar esse resultado. Fuga do imediatismo quase enérgico testado em Boys & Girls, de 2012, Brittany Howard, Zac Cockrell, Heath Fogg e Steve Johnson encontram no novo registro de inéditas mais do que um aprofundamento do próprio universo de referências, mas uma completa desconstrução e particular montagem de diferentes gêneros lançadas em mais de cinco décadas de produção musical.

Blues, Soul, Indie, Country, Gospel e Garage Rock, não importa o estilo, cena ou caminho percorrido pelo quarteto ao longo do disco – o resultado final será comovente, único. Verdadeira prova de conceitos, cada faixa do álbum parece apagar qualquer traço de previsibilidade talvez anunciada dentro da estrutura montada para o debut de 2012, revelando mesmo em gêneros tão desgastados, como o “rock clássico”, uma série de passagens antes ocultas. Mais do que flertar com as décadas de 1950, 1960 ou 1970, em Sound & Color o grupo de Athens define a própria identidade.

Elemento central de todo o trabalho, a voz de Brittany Howard parece servir como elemento inspirador, ponto de partida para o restante da obra e atuação dos companheiros. Perceba como guitarras, baixo, bateria ou mesmo outros instrumentos crescem e encolhem de forma a acompanhar o ritmo da vocalista. Do Soul-Funk em Don’t Wanna Fight, ao rock melancólico de Gime All Your Love, do Blues compacto em This Feeling – faixa entregue ao minimalismo dos violões -, até alcançar a última canção do disco, Over My Head, Howard brilha como a essência da banda.

Ainda que vasto musicalmente, não há como negar que o “som” e a “cor” do presente álbum revelam uma clara preferência do quarteto: a já explorada música negra. Do rock ao country, do blues ao soul, cada uma das peças encaixadas pela banda se relacionam (de forma natural) com diferentes nomes do estilo dentro e fora do continente americano. Artistas como Lee Fields, Sharon Jones ou mesmo românticos como Charles Bradley. Não por acaso a voz de Howard cresce livremente no decorrer das faixas, invadindo (com naturalidade) o mesmo universo de divas/inspirações como Aretha Franklin e Lorraine Ellison.

A principal diferença em relação ao trabalho de outros conterrâneos do Blues Rock está na fuga de uma obra linear, demasiado plástica e “comercial”. Mesmo que faixas como Don’t Wanna Fight e Gime All Your Love pareçam montadas de forma a atingir o grande público, ao ser observado em completude, Sound & Color está longe de parecer uma obra confortada na redundância do pop. Em diferentes brechas do trabalho, blocos de ruídos, faixas captadas em uma atmosfera Lo-Fi e até a formação de temas “pouco vendáveis” parecem abraçam o ouvinte, proposta que desemboca em uma das canções mais intensas (e dolorosas) do ano, Gemini.

Costurado pela amargura, medo e sentimentos conturbados, um jogo de confissões talvez extraídas de diferentes personagens interpretados pela vocalista, Sound & Color sobrevive como uma obra de assimilação imediata. Ainda assim, encarar o segundo álbum do Alabama Shakes como uma previsível está longe de parecer uma certeza. Por trás de cada guitarra lançada por Heath Fogg ou canto triste de Brittany Howard se esconde um mundo de desilusões prontas para sufocar e comover o ouvinte.

Sound & Color (2014, ATO)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: The Black Keys, Jack White e Gary Clark Jr.
Ouça: Don’t Wanna Fight, Gemini e Gime All Your Love

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.