""

Ano:
Selo:
Gênero:
Para quem gosta de:
Ouça:
Nota:

Disco: “Sprinter”, Torres

Torres
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://torrestorrestorres.com/

Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, a melancolia continua a orientar a voz angustiada da norte-americana Mackenzie Scott. Em Sprinter (2015, Partisan), segundo e mais recente trabalho em estúdio da cantora de Nashville, Tennessee, temas como separação, abandono e isolamento ainda servem de incentivo para cada um dos versos assinados pela artista, a diferença? Longe de sufocar de forma perturbada pelo próprio desespero, Torres cresce, explode, transformando o registro em uma obra essencialmente dominada pela raiva.

Como explícito logo na capa do álbum – um retrato da cantora divido em duas partes -, Sprinter, diferente do conceito homogêneo retratado no álbum que o antecede, é uma obra de metades bem definidas. Na primeira delas, eixo que se estende da inaugural e intensa Strange Hellos até a faixa-titulo, uma clara extensão do último disco da musicista. Canções que mesmo aceleradas, por vezes cruas, mantém firme a relação com o Alt. Country e o rock alternativo explorado na década de 1990, principalmente o trabalho de veteranas como PJ Harvey (New Skin) e Cat Power (Son, You Are No Island).

Retrato explícito da alma atormentada de Scott, a porção inicial do disco funciona como uma espécie de grito de liberdade intencional. Mesmo que os versos sirvam como o principal indicativo para essa interpretação – “But if you do not know the darkness / Then you’re the one I fear the most” -, tanto a voz firme como o uso preciso dos instrumentos reforçam a explícita fuga sentimental de Torres, ainda corrompida pela saudade e confessa tristeza, porém, em busca de um novo abrigo amoroso, tema que ainda serve de ponta para o ato seguinte do álbum.

Canção “símbolo” da segunda metade de Sprinter, Cowboy Guilt confirma o natural interesse de Scott para a sequência de faixas que definem o eixo final da obra: o experimento. Ruídos incontidos de guitarras, programações eletrônicas, arranjos ambientais e bases extensas. Ainda que seja possível perceber (mais uma vez) a essência de PJ Harvey e outras veteranas do rock alternativo, pela primeira vez Torres sustenta uma sequência de músicas conduzidas em uma estrutura própria, autoral e provocativa.

Enquanto os versos de Ferris Wheel e The Exchange – faixas que ultrapassam os sete minutos de duração – tecem um dos retratos mais sombrios da obra de Torres, arranjos complexos e soturnos arrastam o ouvinte cada vez mais para o lado melancólico do registro. Ao mesmo tempo em que soa liberta, livre dos tormentos que movimentaram toda a sequência de faixas no primeiro disco, a cantora tropeça, chora, confessa as próprias desilusões. Difícil não se identificar com versos como “I talk about you like mine / My friends just laugh, and roll their eyes”.

“Quebrando” o disco em duas metades, Mackenzie Scott não apenas cria um retrato da própria mente atormentada – em busca de mudança, porém, ainda presa ao passado -, como estreita os laços com o ouvinte, próximo da cantora em cada verso espalhado ao longo do disco. Um jogo contínuo de sentimentos encarados como fragmentos, passagens para que o ouvinte mergulhe ainda mais no ambiente de natureza instável criado e sustentado pela artista até o último instante da obra.

Sprinter (2015, Partisan)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Waxahatchee, Courtney Barnett e Natalie Prass
Ouça: Cowboy Guilt, Strange Hellos e Sprinter

Veja também:


2 thoughts on “Disco: “Sprinter”, Torres

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend