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Disco: “Strange Mercy”, St. Vincent

St. Vincent
Indie/Singer-Songwriter/Female Vocalists
http://www.ilovestvincent.com/

Por: Cleber Facchi

Enquanto grande parte das cantoras e compositores norte-americanas parecem se estapear em busca de um espaço apenas seu no badalado cenário voltado ao rock alternativo, Annie Erin Clark através do seu elogiado St. Vincent conseguiu desde seu primeiro álbum manter um espaço próprio e bem delimitado dentro do vasto panorama musical. Talvez a breve transição ao lado de Sufjan Stevens ou se revelando como número de abertura para o show de uma série de artistas, já garantissem certo destaque para impulsionar o trabalho da musicista, entretanto, longe de se apresentar como uma artista de costas quentes, Clark sempre manteve uma inegável singularidade e beleza em seus projetos.

Embora seu primeiro álbum, Marry Me de 2007, já mostrasse muito da musicista texana, apenas quando Actor, seu segundo registro foi lançado em maio de 2009 que a cantora mostrava de fato a que veio. Cruzando doses de guitarras excêntricas, elementos instrumentais que bebiam de distintas fontes – do indie rock ao baroque pop, passando pelo art rock -, além, claro de letras marcadas por uma peculiaridade poética, St. Vincent nunca pareceu jogar com as mesmas regras que delimitavam (e ainda delimitam) a maioria das produções musicais em seu país de origem ou em qualquer outro lugar do globo.

Mais uma vez buscando perverter seus próprios métodos e temáticas instrumentais, em Strange Mercy (2011, 4AD), seu terceiro e mais novo álbum,  Annie Clark ou St. Vincent quebra seu próprio caminho, se apoiando em um trabalho que preza pela limpidez instrumental (mesmo as guitarras carregadas de fuzz soam essencialmente audíveis), bem como por letras que transitam pelo irônico, o intimista, o doloroso e o existencial, sempre fechadas ou ambientadas dentro das peculiares especificidades da musicista. Cru, ao mesmo tempo que cuidadosamente controlada, a estranha misericórdia que delimita o trabalho da cantora parece cercar o ouvinte pelos quatro cantos, tornando a audição do álbum solta e hipnótica na mesma medida.

Havia em seu registro anterior a busca por um som que de certa maneira se cercava de efeitos, detalhamentos, além de uma vaga ideia de coletivo, como se Clark fosse constantemente acompanhada de teclados volumosos, coros vocais quase angelicais e toda uma presença instrumental que a transformava apenas no elemento de ponta de um grande concentrado de indivíduos. Strange Mercy, entretanto, se propõe como um trabalho diferente, como se ao longo de todo o registro fosse apenas a texana assumindo cada pequena particularidade do álbum, algo que potencializa o disco, bem como aproxima todas suas composições.

Por mais que em seu novo álbum St. Vincent potencialize o uso de boas letras – Cheerleader e Surgeon reforçam bem isso -, ao longo de Strange Mercy Clark parece na verdade desenvolver uma estufa instrumental para que as guitarras toscamente encantadoras possam crescer e transitar livremente. Sempre propostos de forma descompromissada, riffs e momentos de pura exaltação surgem em diversos pontos do trabalho, com a musicista se perdendo em meio a loopings quase cacofônicos, algo bem representado no single Cruel ou em Neutered Fruit. Surgem ainda diversas oportunidades, como em Northern Lights, em que a cantora se permite brincar com o instrumento, mandando boas rajadas de guitarras (sempre tomadas de distorção e efeitos) para cima do ouvinte.

Mesmo que compartilhe de uma condução musical similar do princípio ao fim, Strange Mercy parece se dividir em dois momentos bem distintos. Até a sexta faixa do álbum e canção que dá nome ao disco temos uma instrumentação e versos trabalhados de forma mais simplista, porém acessível, principalmente para quem nunca tenha ouvido o trabalho da cantora. Do meio em diante o álbum segue um formato mais rebuscado, e que de alguma forma remete ao que fora proposto no disco anterior, com Clark alcançando seus momentos mais intimistas e dolorosos. Quando juntas as duas metades parecem alcançar a totalidade do disco, se completando e transformando o terceiro registro do St. Vincent em um dos projetos mais complexos e díspares do ano.

Strange Mercy (2011, 4AD)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: tUnE-yArDs, Dirty Projectors e Grizzly Bear
Ouça: Cruel, Cheerleader e Northern Lights

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