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Disco: “Sun”, Cat Power

Cat Power
Indie/Female Vocalists/Electronic
http://www.catpowermusic.com/

Por: Cleber Facchi

Por mais que Chan Marshall tenha assumido inúmeras facetas instrumentais e líricas desde que começou a se apresentar como Cat Power no começo da década de 1990, em quase 20 anos de atuação a norte-americana jamais se afastou tanto da proposta iniciada em começo de carreira quanto agora. De posse do nono registro em estúdio – e o primeiro álbum de inéditas em seis anos -, Sun (2012, Matador), a cantora de Atlanta, Georgia deixa de lado a melancolia semi-acústica para apresentar o trabalho mais ousado (e até difícil) de toda a carreira. Parcialmente longe das guitarras, Marshall mergulha suave no uso de sintetizadores e todo um arsenal de novas referências eletrônicas.

Nada óbvio ou minimamente similar ao que a cantora propunha em outros tempos, o novo álbum possibilita que ao longo de 11 inéditas canções Marshall se afaste da personagem sofrida projetada por ela ao longo de duas décadas. Esqueça a figura amargurada que parecia surgir em cima de um palco à meia luz, destilando sentimentos corrompidos e toda uma variedade de referências sorumbáticas que naturalmente a transformaram na maior confidente de todo ouvinte que teve o coração partido. De cabelos curtos e até radiante em diversos momentos, Cat Power substitui a dor pela superação, as guitarras pelos beats, e o sofrimento por um fino toque de humor irônico que antes parecia impossível de ser encontrado em suas iniciais propostas.

Maior prova da distinção do novo álbum em relação aos demais projetos da artista está na forma como Marshall destila as recentes desilusões de maneira não dramática como em outras épocas. Focado (quase) inteiramente no término recente do relacionamento com o ator Giovanni Ribisi, o presente disco abandona o resultado hermético e essencialmente amargurado que definiu obras como You Are Free (2003), The Greatest (2006) e Moon Pix (1998) para se envolver como um resultado de proporções maiores. Um aspecto renovado que define tanto os versos sóbrios que pontuam cada uma das faixas do álbum, como da experimental e inicialmente desconcertante instrumentação que percorre todos os espaços da obra. Como o título já aponta, o novo trabalho é um disco que brilha e parece inteiramente aquecido pelo Sol.

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Curioso, Sun é um tratado de visíveis contrastes. Enquanto as letras de Real Life, Ruin e Human Being reforçam toda a melancolia e até certa dose de rancor – resultado óbvio em vista dos recentes problemas que circundam a vida pessoal da cantora -, os vocais e principalmente a sonoridade que percorre o disco tragam a norte-americana para outra direção. É como se em alguns momentos Marshall estabelecesse um projeto que nos convida à dança enquanto trechos dolorosos sobem secos ao fundo das canções, resultando em um disco inicialmente confuso (principalmente aos amantes dos primeiros discos da artista), mas que logo estabelece regras para bem situar e consequentemente prender esse mesmo ouvinte.

Mesmo que se revele fascinante e inusitado, não há como negar o quanto as aventuras pelo campo da música eletrônica estabelecem reações adversas com o passar das faixas. Em alguns momentos os pequenos experimentos sintetizados soam retrógrados e até falhos, resultado mais do que explicado em vista da opção de Marshall por produzir e definir ela própria todos os rumos que caracterizam o disco. É justamente por conta dessa execução básica de algumas composições que Sun acaba perdendo muitos pontos e não atingindo o resultado que parecia naturalmente encaminhado a alcançar. Contudo, a boa condução de alguns momentos chaves no decorrer da obra, como em Real Life, 3,6,9 e na extensa Nothin But Time tornam regular e criativa a situação do disco, que ainda flerta com experimentos ousados (Always On My Own) e até algumas músicas mais convencionais (Cherokee).

Principalmente para os velhos seguidores da cantora, Sun é um trabalho que exige tempo até se revelar por completo – ou parcialmente com maiores efeitos. Ainda que algumas bases sejam as mesmas dos memoráveis trabalhos que caracterizaram a atuação da artista entre o fim dos anos 90 e o início da década seguinte, quanto mais nos aventuramos pelo disco, mais Marshall mostra o quanto evoluiu como cantora, letrista e até como produtora. Por mais que o registro demore em surtir efeito, quando desvendado torna-se praticamente impossível se desvencilhar das amarras sonoras e poéticas que a cantora trama no interior dele. O sol brilha forte no novo álbum de Cat Power, mesmo que algumas nuvens tentem bloquear isso.

Sun (2012, Matador)

Nota: 7.8
Para quem gosta de: Feist, Fiona Apple e PJ Harvey
Ouça:  Real Life, 3,6,9 e Cherokee

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